Livros e Cinema

kinemAndara*A Universidade Federal do Pará realiza hoje no Ateliê das Artes do campus Guamá a mostra kinemAndara, que traz cinco curtas realizados pelo escritor Vicente Cecim. Os registros foram feitos pelo autor, em Super-8, entre 1975 e 1979. O ciclo ajuda a entender sua obra literária, que é baseada no que ele chama de literatura fantasma. Ele escreve livros que remetem a um livro invisível, imaginário, a Viagem a Andara oO livro invisível. A mostra começa às 19h e a entrada é gratuita. Mais informações aqui.

*A cidade de Bauru, no interior de São Paulo, realiza pela primeira vez amanhã o evento Cine Literatura. O projeto é voltado para vestibulandos, já que serão exibidos filmes baseados em obras indicadas pela Fuvest e pela Unicamp. As sessões são gratuitas, realizadas no auditório Helvécio de Queiróz, no Centro Cultural Carlos Fernandes de Paiva. O filme Memórias Póstumas de Brás Cubas será exibido em dois horários – às 9h e às 14h. O site da prefeitura de Bauru também tem informações.

*Falando em filmes inspirados em livros, acaba de estrear o filme Oz: Mágico e Poderoso, baseado na obra de L. Frank Baum. O longa, com James Franco e Mila Kunis, ficou em primeira lugar no fim de semana nas bilheterias dos Estados Unidos. O filme dos estúdios Disney não é a primeira vez que Oz aparece no cinema. Os leitores que quiserem revisitar o clássico de Baum também encontram a obra filmada em O Mágico de Oz, dirigido por Victor Fleming em 1939, com Judy Garland no papel de Dorothy Gale.

*Para encerrar a sessão, só mais uma lembrança kinoliterária: ontem, Douglas Adams completaria 61 anos – ganhou até homenagem do Google. O autor de O Guia do Mochileiro das Galáxias não esteve nas telinhas só quando essa obra foi adaptada para o cinema, em 2005. Adams também era comediante e foi um dos autores de esquetes da série Monty Python’s Flying Circus.

Bonsai, o livro-miniatura

Bonsai - Alejandro ZambraO chileno Alejandro Zambra define bonsai:  “é uma réplica artística de uma árvore em miniatura.” E é assim que ele enxerga os livros, a literatura, o ato de escrever – quer fazer uma réplica artística de um livro em miniatura, com a mesma técnica de um bonsai: moldando, dando forma. Procura a harmonia entre a história e a linguagem e rega a narrativa com referências literárias aqui e ali. Sugere uma inspiração tirada de Vila-Matas, que já abreviou a história da “Literatura Portátil” e recheou o romance com um impressionante repertório de autores e artistas.

Em Bonsai, as referências são  mais modestas e aparecem, sobretudo, nas leituras dos personagens, um casal recluso, talvez deprimido, que devora romances. Julio e Emilia vivem uma história de amor literária. Eles leem clássicos, dialogam sobre adaptações hipotéticas contemporâneas dos personagens das obras e sofrem reviravoltas como se enxergassem nos livros o reflexo da própria imagem. É quando leem Tantalia, conto de Macedonio Fernández, que se veem refletidos com mais detalhes do que poderiam suportar. A história de um casal que compra uma planta para simbolizar o amor; uma planta que morre e mata o amor. O suficiente para desfazer um casal que até então só carregava uma única mentira: diziam já ter lido Marcel Proust. Em um momento, chegam a experimentar juntos a leitura (que os dois fingem ser uma releitura) de Em Busca do Tempo Perdido. Mas eles querem uma experiência distante da convencional. “Como eram inteligentes, passaram ao largo dos episódios que sabiam ser célebres: o mundo se emocionou com isso, eu vou me emocionar com outra coisa.”

Zambra parece querer aplicar esse recurso em sua obra. Todo mundo se emociona com o fim dos livros, por que não fazer com que se emocionem pelo começo? O início é o ponto alto de Bonsai.  A primeira frase obriga o leitor a mudar de perspectiva e de expectativa. “No final ela morre e ele fica sozinho.” Desmonta nossa experiência tradicional de leitura, com uma fórmula de começo, meio e fim – nessa ordem – e cria suposições sobre o meio da história, já que o final já é sabido. O início, de inegável originalidade (não à toa Zambra é um dos nomes badalados da atual literatura latino-americana), escancara uma das questões que permeiam a narrativa – como lidar com o fim e com a consciência do fim. O autor garante que não é fácil. “Não é porque se sabe de uma coisa que se pode impedi-la, mas há ilusões.”

Bonsai pessegueiro

As ilusões são fundadas na falsa simplicidade. Alejandro Zambra contrapõe, de um lado, uma linguagem simples (que, na verdade, sofistica a leitura), com algumas frases que beiram a ingenuidade infantil – e nos lembram de como é difícil reduzir as experiências à simplicidade; de outro, a metáfora de que, como em um bonsai, a simplicidade é aparente – tudo nessa história e nas histórias que ela conta é mais complexo do que parece. Assim como escrever.

A simplicidade é quase uma obsessão em Bonsai. E aí mora o problema. Na miniaturização da narrativa, o leitor, que joga a expectativa no meio da história, nos desdobramentos que levaram ao já conhecido final, sai com as mãos meio vazias. O livro ficou sem meio, sem preenchimento. Não comove como história, apesar de valer a experiência literária. A parte meio cheia das mãos do leitor é a herança que fica: a suposição de que ninguém na história é mais feliz por saber o fim, a possibilidade de sempre voltar ao começo e a promessa de que essa é só a estreia de Alejandro Zambra.

Bonsai, de Alejandro Zambra. Tradução de Josely Vianna Baptista. Editora Cosac Naify, 91 páginas. R$ 23.