O Clube do Livro tá no ar!

Saiu! O primeiro episódio do Clube do Livro do Põe na Estante já está no ar no nosso canal no YouTube ,uma parceria com a NAV Reportagens. As jornalistas Maria Antonia Demasi e Victória Mantoan compartilharam com a gente as impressões sobre o livro Corações Cicatrizados, do romeno Max Blecher. Assiste e conta o que achou? ;)

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Clube do Livro

Lembra do novo canal do Põe na Estante no YouTube que anunciei por aqui? Não é para fazer resenha, não. Já tem muita gente fazendo isso – e vários fazendo muito bem! As resenhas continuam sendo publicadas por aqui.

O canal é pra uma ideia um pouquinho diferente: agora o Põe na Estante vai ter um Corações Cicatrizados - Max Blecherclube do livro. Todo mês, eu convido amigos a compartilharem comigo uma leitura. Com a mesma obra em mãos, vamos debater as impressões de cada um. É quase uma resenha, mas conjunta…

A estreia do Clube do Livro – e do canal – será em breve, com Corações Cicatrizados, do escritor romeno Max Blecher. A obra ganhou edição brasileira em 2016, publicada pela Carambaia. Estão todos convidados para essa leitura e para esse encontro (que terá data marcada logo, logo)!

A Série Napolitana

a-amiga-genial-elena-ferranteÀs vezes, a história de duas amigas não é a história de duas amigas. Ou não é só. Nesse caso, a história de duas amigas é um descritivo cheio de minúcias da sociedade italiana, um filme sobre as transformações sociais e econômicas na Segunda Guerra e depois dela, e um questionamento – sem uma linha de ativismo – sobre a condição feminina e o machismo.

Elena Greco é a narradora das cerca de 1500 páginas que compõem os quatro volumes da série napolitana. Elena Greco é também Lenu, amiga de Raffaela Cerullo, Lila. Lenu e Lila nasceram em um bairro pobre de Nápoles, na década de 1940. Cresceram juntas e dividiram ali as primeiras brincadeiras, os primeiros amores e os primeiros livros. Lila é brilhante, mas é Lenu quem não desiste nunca de estudar. É ela também quem publica um livro que a faz reconhecida. Mas isso vem depois. Antes, há os primeiros conflitos, as primeiras dúvidas, as primeiras palavras e os primeiros silêncios.

Lenu e Lila são inseparáveis nos dois primeiros livros. A Amiga Genial e História do Novo Sobrenome contam a infância e a juventude das duas amigas. Elena narra sob a justificativa de que a palavra é o que fica depois que a gente vai. Ela conta essa história porque Lila sumiu – é o que sabemos no início do primeiro livro, quando o filho dela pede a ajuda de Lenu, já velha, para encontrá-la. É por isso que a tetralogia começa, que Elena Greco volta às memórias para registrá-las no papel. Se não há mais o corpo, não há mais o afeto, as palavras são o que restam.

Lenu descreve a relação com Lila em detalhes. Um vínculo ora generoso, cheio de incentivos e cuidados, ora competitivo, cheio de provocações e seduções. As duas são complementares, ao mesmo tempo em que são oposições. Lenu às vezes se sente manipulada, comandada pela amiga ainda que tente se opor. Consciente do quanto eram simbióticos esses afetos, às vezes tinha dúvidas se tomava decisões para agradar Lila ou para incomodá-la. Podia ser os dois. Ou podia ser só para ter certeza de que ocuparia um lugar na história. “Lila era má: em algum lugar secreto de mim, eu continuava a pensar isso. Ela me mostrara que sabia ferir não só com as palavras, mas que também saberia matar sem hesitação, e mesmo assim suas potencialidades agora me pareciam uma ninharia. Eu me dizia: ela vai desatar algo ainda mais nefasto, e recorria à palavra malefício, um vocábulo exagerado, que me vinha das fábulas de infância.”

História da Menina Perdida - Elena FerranteNo terceiro e no quarto volumes da série napolitana, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida, Lila e Lenu são adultas, não mais tão inseparáveis e tomam caminhos diferentes. Lenu sai de Nápoles para continuar estudando; Lila fica. Lenu circula entre intelectuais; Lila trabalha em uma fábrica e flerta com o movimento operário. Lenu muda-se para o norte, uma Itália rica, associada à industrialização e ao progresso; Lila fica no sul, uma Itália pobre, associada às tradições. Entre idas e vindas, casamentos e separações, filhos e novos filhos, Nápoles segue sendo o ponto de encontro. Para Lenu, a cidade soa agora estranha, alheia ao que ela construiu. Para Lila, Nápoles segue sendo símbolo do pertencimento, do domínio sobre a própria vida.

Mas Nápoles é apenas a geografia dos encontros. A sintonia, quando ela vem, está na resistência. Lenu e Lila são sobreviventes – não vítimas, mas resultados das próprias escolhas para seguir vivendo em um cenário bruto e opressor. Ainda que por percursos distintos, as duas amigas deram os passos necessários para resistir. Uma negando o feminino, lutando contra ele diariamente; a outra, mesmo entre tantos conflitos, tentando acolhê-lo. Não à toa a aproximação de Lila e Lenu depois de anos de silêncio e distância, vem quando as duas descobrem estarem grávidas. “Os meses de gravidez, apesar das preocupações, passaram rápido para mim, e muito lentamente para Lila. Várias vezes tivemos de constatar que experimentávamos um sentimento de espera muito diverso. Eu dizia frases do tipo: estou no quarto mês; ela, frases como: ainda estou no quarto mês. É verdade, a cor de Lila logo melhorou, seus traços suavizaram. Mas nossos organismos, mesmo sendo submetidos ao mesmo processo de reprodução da vida, continuaram sofrendo suas fases de maneira diferente, o meu com zelosa colaboração, o dela, com desanimada resignação.”

Autora misteriosa que usa esse pseudônimo para ocultar a verdadeira identidade, a italiana Elena Ferrante é boa com as palavras. Escolhe aquele jeito de escrever que a gente lê como se os tomos fossem fininhos, breves. Nem parece que foram 1500 páginas. A escritora também gosta de nos provocar com os títulos. Em A Amiga Genial, levamos o livro todo para saber, afinal, quem é a mais genial delas. Terminamos sem saber bem. Assim como em História da Menina Perdida o leitor não tem certeza se o título faz referência a quem perdeu o rumo, quem perdeu a vida, ou quem se perdeu – qual das tantas meninas que se perderam nesses quatro volumes.

Um romance de formação. Um romance social. Um romance histórico. A série napolitana é tudo isso. Os livros escritos por Elena Ferrante percorrem a segunda metade do século XX e chegam ao início do XXI com reflexões reais e cruas. Não que a obra se proponha a questionar, mas ao narrar com tanto realismo e até com violência, acaba colocando muitas instituições contra a parede. Inclusive o machismo. Aliás, parece uma intersecção do romance com a vida real quando a série napolitana vira um fenômeno de vendas, recebe as deferências cabidas à boa literatura, e as especulações se voltam para a possibilidade de Elena Ferrante ser um homem.

O leitor perde muito lendo a série napolitana, não vou mentir. Perde o sono, perde o conforto, perde a presença. É um luto quando os livros terminam, com a ausência de Lenu e Lila. Mas o que ele ganha nem se compara. O leitor ganha a possibilidade de um fim, de acompanhar uma trajetória completa, de saber o que vem depois. É a própria narradora quem nos sentencia a volta à realidade, na última página do último livro: “Diferentemente do que ocorre nos romances, a vida verdadeira, depois que passou, tende não para a clareza, mas para a obscuridade.” Voltemos, então, às nossas confusas questões diárias que nunca saberemos como, nem quando vão se esclarecer, mas que podemos escolher como enfrentar – se resistindo ou não.

Stoner

Difícil superar o fim da leitura de Stoner. Não queria me separar do protagonista que dá Stonernome ao livro e com quem dividi uma vida inteira. A vida dele. Soube como ele cresceu, viveu e morreu. Sozinho, quase sempre, ainda que acompanhado. O romance, publicado pela primeira vez em 1965, ficou meio século esquecido, até ser redescoberto por alguns críticos e escritores. Esta obra de John Willians é só isso: a vida de William Stoner.

“Quando não estava preparando aulas, corrigindo trabalhos ou lendo teses, estudava e escrevia. Tinha a esperança de que, com o tempo, pudesse estabelecer para si mesmo uma boa reputação como estudioso e como professor.”

Nascido em uma família humilde de agricultores na zona rural, o personagem, que guarda certas semelhanças com o autor, vai para a cidade estudar. Os estudos de agronomia na Universidade do Missouri ajudariam no sítio da família, mas quis o Soneto 73 de Shakespeare que Stoner se apaixonasse pela literatura. Esses foram os versos que o fizeram derramar sentido sobre si próprio, as palavras que o levaram à consciência de um mundo que não precisava ser decorado como as aulas de química e podia ser redescoberto a cada nova interpretação. Na literatura, William Stoner encontra também prazer em ensinar e vira professor universitário especializado em literatura medieval. O letramento e a aproximação com os livros o afastam dos pais, o que apesar de não enchê-lo de culpa o carrega de certa tristeza resignada.

Em sua trajetória a partir daí, não há feitos extraordinários. Ele se casa, tem uma filha, enfrenta problemas no trabalho, lida com alegrias e frustrações – muito mais frustrações do que alegrias, fica doente e morre. O que persiste: uma solidão profunda. Os colegas na universidade, os poucos amigos, os pais, a esposa Edith, que ele não ama, e a filha, que quando poderia compreendê-lo já está distante demais, não parecem capazes de acompanhá-lo em suas intenções, em suas palavras ou em suas ações virtuosas e convictas. A exceção é a relação com outra mulher, a única conexão real que Stoner parece conseguir fazer, a única pessoa capaz de arrancá-lo de uma solidão persistente. “Sonhava com a perfeição, com mundos em que eles poderiam ficar sempre juntos, e quase acreditava no que sonhava.”

John Williams é um narrador extraordinário. Sua prosa flui mente adentro sem percalços. Seus personagens são tão ordinários e tão reais. O autor é capaz de construir uma obra-prima a partir da vida de um homem comum. Comum e ingênuo, que acredita na universidade, na academia, nas Letras. Mas pouco nele mesmo.

Stoner é de uma mediocridade heroica. Ele é capaz de se resignar em nome do bem-estar de outros, entrega os pontos quando as palavras perdem o sentido, é capaz de deixar de decidir o que tem consequências cruciais em seu futuro, mas não abre mão da ética. É tomado por uma resignação que alguns consideram apatia e covardia; eu considero contemplação e deferência.

“O que sentia era a luz, a luz brilhante do sol da tarde. Piscou e considerou impassivelmente o céu azul e o brilhante contorno do sol que podia ver de sua janela. Decidiu que eram reais. Moveu a mão, e com esse movimento sentiu uma força curiosa fluir para dentro de si, como se viesse do ar.”

Esta obra de John Williams é tudo isso: a vida de William Stoner.

Stoner, de John Williams. Tradução de Marcos Maffei. Rádio Londres, 314 páginas, R$ 43.

 

O Passageiro Secreto

Para uma obra breve, uma resenha brevíssima. Livro de Joseph Conrad tem mar, pode saber. O escritor britânico que nasceu e cresceu em uma Polônia ocupada pela Rússia foi tripulante de diversas embarcações, chegando ao posto de capitão. Muitas de suas histórias são também navegantes, como O Passageiro Secreto.

O passageiro secretoEm uma viagem, um capitão resgata, no meio da noite, um náufrago do mar. Sem o conhecimento do resto da tripulação, ele permite que o passageiro fique. Esconde-o em sua própria cabine e divide com ele o diminuto espaço de seus aposentos. Quando juntos, conversam em voz baixa para evitar atenções indesejadas. Quando sozinho, o passageiro é praticamente invisível. Ninguém o nota. “Enquanto ele pendia da escada, como um nadador em repouso, os relâmpagos marinhos percorriam seus braços e pernas a cada movimento; e o revelavam espectral, prateado, lembrando um peixe. Mudo como um peixe, também.”

Silencioso, mas sincero, o náufrago ganha a confiança do capitão e, aos poucos, do leitor também – apesar do motivo que o levou às águas do mar. Entre os dois personagens nasce uma cumplicidade intrincada, que leva a um reconhecimento mútuo. Em alguns momentos, dá pra confundir quem é quem, onde começa um e termina o outro, como uma sombra ou um espelho. “Estava tão identificado com meu duplo secreto que nem mencionei o acontecido naqueles sussurros escassos e cautelosos que trocávamos.”

Além de ser curto, o livro é desses que passam rápido. Quando você nota, já terminou. A trama flerta com o suspense e o texto é agradável, fluido, ritmado – lembra o mar em seus dias tranquilos.

O Passageiro Secreto, de Joseph Conrad. Tradução de Sergio Flaksman. Cosac Naify, menos de 100 páginas (elas não são numeradas e têm a beirada trabalhada com artes incríveis!), R$ 39,90.

Vozes de Tchernóbil

Eu estava no ônibus quando comecei a ler Vozes de Tchernóbil. Não me esqueço, porque precisei pavozes de tchernobilrar. Passei mal com o relato de Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro Vassíli Ignátienko, que morreu depois de meses definhando em consequência da radiação. Ele foi um dos homens que ajudaram a conter o fogo do reator da usina nuclear de Tchernóbil, na fronteira entre a Ucrânia e Belarus, no dia 26 de abril de 1986, depois que uma série de explosões destruiu a central elétrica atômica e espalhou partículas radioativas por toda a URSS e por diversas regiões da Europa. É em detalhes que Liudmila conta os efeitos nefastos dos átomos radioativos no corpo do marido. “Nenhuma das enfermeiras tinha coragem de se aproximar dele, de tocá-lo. Se era preciso fazer algo, elas me chamavam. E eles… Eles fotografavam… Para a ciência, diziam.” (Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko)

O episódio elevou a estatística de 82 para seis mil casos de doenças oncológicas a cada cem mil habitantes na região. Esses os números conhecidos, porque essa história é marcada por segredos.

A jornalista Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de literatura de 2015, dá voz e nome a mães, filhas, filhos, amigos, esposas das vítimas de uma das piores catástrofes do século XX. Historiadores, cientistas e políticos que vivenciaram o episódio ou as consequências dele também contribuem com seus depoimentos nesse livro que une as dimensões histórica e humana da tragédia. Moradores dos arredores de Tchernóbil, que viram suas produções agrícolas e suas criações de animais serem devastadas pela radiação, contam suas histórias – uns que decidiram ir embora quando o governo evacuou a área, e outros que insistiram em ficar, porque não sabiam viver de outra forma ou em outro lugar.

Os relatos, reproduzidos fielmente pela autora, são cheios de crueza e de dor. Alguns em tom desolado, de lamentação, outros carregados de resiliência; há os que sentem raiva, e os que sentem tristeza; há os que se arrependem, e os que até hoje não se conformam. Na maioria, um senso latente de patriotismo, a certeza de que os soviéticos que atuaram no combate ao incêndio que sucedeu a explosão e aqueles que atuaram depois como liquidadores, trabalhando para aterrar o reator e conter a disseminação da radiação, cumpriram seu dever, apesar do descaso das autoridades e da falta de transparência – a omissão de informações e a tentativa de diminuir a gravidade da tragédia potencializaram seus efeitos destruidores. “Estávamos habituados a acreditar. Eu sou da geração pós-guerra, que cresceu nessa fé. De onde veio essa fé? Nós vencemos uma guerra tão terrível! O mundo todo nos reverenciou. Isso de fato ocorreu. Nas cordilheiras, esculpiam sobre as rochas o nome de Stálin! O que era isso? Um símbolo! O símbolo de um grande país.” (Marat Filíppovitch Kokhánov, ex-engenheiro-chefe do Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Belarús)

Em meio à Guerra Fria, as vítimas de Tchernóbil estavam preparadas para ataques do inimigo, para se proteger de um bombardeio, eram treinadas para sobreviver a hostilidades estrangeiras, mas nunca tinham esperado o que aconteceu, nem cogitavam serem vítimas do descaso dos próprios conterrâneos. Ucranianos e bielorrussos passaram a ser estigmatizados, olhados de esgueira, recebidos com ressalvas. A explosão destruiu a fé que muitos ainda tinham no comunismo e redesenhou o que muitos entendiam por guerra. O acidente nuclear marcou esses soviéticos no que há de mais íntimo: a construção da identidade. “Nós nos perdemos na história. Quando você pensa em Tchernóbil, recai sobre o mesmo ponto: quem somos nós?” (Guenádi Gruchevói, deputado do Parlamento bielorrusso, diretor da Fundação para as Crianças de Tchernóbil)

Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch. Tradução de Sonia Branco. Companhia das Letras, 383 páginas, R$ 39,90.