Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang

Ligue os Pontos - Gregorio DuvivierComediante, roteirista, ator, colunista, cronista e poeta. Gregorio Duvivier, um dos autores do popular Porta dos Fundos, mistura muitos de seus papéis em Ligue os Pontos. Fala de amor romântico, faz piada; filosofa sobre o dia a dia e sobre os quereres, concretiza rotinas; especula sobre as origens, ironiza; transforma a partida do carro em poesia, e pokemon, em elogio máximo.

No livro, o cotidiano está retratado em detalhes que costumam passar batido, na orelhada na conversa dos outros, no relance na cena do canto, ou nas atividades, nos objetos e nas grifes que estão todos os dias ao alcance. “o ipod o iphone o iogurte grego o mate de galão ou o miojo” que parecem não ter importância alguma, até alguém conseguir usá-los como parâmetros de modernidade para falar de amor. Sabe-se lá como se faz isso, mas Duvivier faz. Parece engraçado? E é também.

O amor e a vida viram figuras palpáveis, concretas e com marca. Como realmente são. As referências saem da mesa, da escrivaninha, da trilha sonora, da televisão. Dos nuggets ao icequê, dos beatles ao doug. Como cenário, o Rio de Janeiro. Com ruas, avenidas e números devidamente indicados para quem levar à risca a história de ligar os pontos e quiser tentar reconstruir o roteiro (mental) do escritor.

As descrições, cheias de metáforas e comparações, são sem dúvida um ponto alto de Gregorio Duvivier, muito bom em criar imagens literárias, transformando a avenida niemeyer no chile fluminense, e a chegada das aleluias que rodeiam as lâmpadas em ritual de medo e adoração.

A tarefa de ligar os pontos fica para você, leitor, que pode encontrar tudo ou nada nas páginas. Como o autor quando ligou “os pontos sardentos das suas costas na esperança de que a caneta esferográfica revelasse” tantas imagens esperadas, o leitor deste livro também pode se deparar com seres mitológicos, um mapa do tesouro ou uma constelação. Depende do caminho que a sua Bic percorrer.

Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang, Gregorio Duvivier. Companhia das Letras, 85 páginas, R$ 29,50.

Da Poeta ao Inevitável

Da Poeta ao InevitávelNo canto esquerdo da minha estante, há um nicho exclusivo para os novos autores. Escritores estreantes que prometem perpetuar a boa literatura. Muitos deles compartilham comigo a profissão – devem ter escolhido o jornalismo porque já sabiam que tinham algo dizer. E a melhor parte de ler alguém pela primeira vez é não saber o que esperar. Somos conquistados por gratas surpresas. Foi assim com Da Poeta ao Inevitável (PS: Entres Mins, El_s e Seis Deusas), da jovem jornalista Maria Giulia Pinheiro.

Cada pedaço do título nomeia um dos grupos de poemas que compõem a obra. Os primeiros textos são amor, sensualidade e sexo, tudo com muita intensidade, do tipo que deixa marcas na pele e na alma, sem controle e sem palavras medidas. Mas está mais ao fim do livro o que ressoa com mais força – em Entre Mins e El_s.

Em Entre Mins há mensagens muito pessoais, desabafos cheios de subjetividade, confidências sobre o que se fez, o que não se fez e o que se acreditou ter feito, como numa análise demorada no espelho em que nos pegamos tentando identificar de onde vem cada pedacinho. Conversas da autora com ela mesma, com a vida e com o universo.

“Me ensina a dançar todo dia,
que não aguento ter de renascer
cada manhã.
Meus tropeços sempre novos e sozinhos
são tristes, Deus,
e queria tanto que fossem dança,
que flutuassem nas mãos de alguém.

(…) Me tira pra dançar, Deus,
que já não suporto
meu solo.”

Em El_s o olhar da escritora aponta pra fora, não mais para dentro. O diálogo com o mundo e com o universo sobe o tom, fica mais firme: resultado de um posicionamento que vem de uma convicção racional, não mais emocional. Soa como uma bronca. É político, é feminino, é feminista. Estão ali os gêneros, a violência, o aborto, a concepção e outras profundezas do mundo social que engolimos em silêncio.

Mas se algo não tem destaque em Da Poeta… é justamente o silêncio. Pode-se pecar por falar demais e sem jeito, mas não por ficar quieto. Opiniões fortes demais para isso. Uma obra de quem fala por si e pelo outro, mas que também sabe ouvir. Não há silêncios, mas há espaços. Vazios que podem ser preenchidos pelo outro, como se a autora dissesse que está disposta para o mundo – sobretudo, eu diria, para o debate. Não é a toa que o texto da orelha termina com o endereço eletrônico da escritora. Sinal dos novos tempos, nos quais autor e leitor são um só, e o escritor é todo ouvidos…

Da Poeta ao Inevitável (PS: Entre mins, El_s e Seis Deusas), Maria Giulia Pinheiro. Patuá, 168 páginas, R$ 30.