Vozes de Tchernóbil

Eu estava no ônibus quando comecei a ler Vozes de Tchernóbil. Não me esqueço, porque precisei pavozes de tchernobilrar. Passei mal com o relato de Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro Vassíli Ignátienko, que morreu depois de meses definhando em consequência da radiação. Ele foi um dos homens que ajudaram a conter o fogo do reator da usina nuclear de Tchernóbil, na fronteira entre a Ucrânia e Belarus, no dia 26 de abril de 1986, depois que uma série de explosões destruiu a central elétrica atômica e espalhou partículas radioativas por toda a URSS e por diversas regiões da Europa. É em detalhes que Liudmila conta os efeitos nefastos dos átomos radioativos no corpo do marido. “Nenhuma das enfermeiras tinha coragem de se aproximar dele, de tocá-lo. Se era preciso fazer algo, elas me chamavam. E eles… Eles fotografavam… Para a ciência, diziam.” (Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko)

O episódio elevou a estatística de 82 para seis mil casos de doenças oncológicas a cada cem mil habitantes na região. Esses os números conhecidos, porque essa história é marcada por segredos.

A jornalista Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de literatura de 2015, dá voz e nome a mães, filhas, filhos, amigos, esposas das vítimas de uma das piores catástrofes do século XX. Historiadores, cientistas e políticos que vivenciaram o episódio ou as consequências dele também contribuem com seus depoimentos nesse livro que une as dimensões histórica e humana da tragédia. Moradores dos arredores de Tchernóbil, que viram suas produções agrícolas e suas criações de animais serem devastadas pela radiação, contam suas histórias – uns que decidiram ir embora quando o governo evacuou a área, e outros que insistiram em ficar, porque não sabiam viver de outra forma ou em outro lugar.

Os relatos, reproduzidos fielmente pela autora, são cheios de crueza e de dor. Alguns em tom desolado, de lamentação, outros carregados de resiliência; há os que sentem raiva, e os que sentem tristeza; há os que se arrependem, e os que até hoje não se conformam. Na maioria, um senso latente de patriotismo, a certeza de que os soviéticos que atuaram no combate ao incêndio que sucedeu a explosão e aqueles que atuaram depois como liquidadores, trabalhando para aterrar o reator e conter a disseminação da radiação, cumpriram seu dever, apesar do descaso das autoridades e da falta de transparência – a omissão de informações e a tentativa de diminuir a gravidade da tragédia potencializaram seus efeitos destruidores. “Estávamos habituados a acreditar. Eu sou da geração pós-guerra, que cresceu nessa fé. De onde veio essa fé? Nós vencemos uma guerra tão terrível! O mundo todo nos reverenciou. Isso de fato ocorreu. Nas cordilheiras, esculpiam sobre as rochas o nome de Stálin! O que era isso? Um símbolo! O símbolo de um grande país.” (Marat Filíppovitch Kokhánov, ex-engenheiro-chefe do Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Belarús)

Em meio à Guerra Fria, as vítimas de Tchernóbil estavam preparadas para ataques do inimigo, para se proteger de um bombardeio, eram treinadas para sobreviver a hostilidades estrangeiras, mas nunca tinham esperado o que aconteceu, nem cogitavam serem vítimas do descaso dos próprios conterrâneos. Ucranianos e bielorrussos passaram a ser estigmatizados, olhados de esgueira, recebidos com ressalvas. A explosão destruiu a fé que muitos ainda tinham no comunismo e redesenhou o que muitos entendiam por guerra. O acidente nuclear marcou esses soviéticos no que há de mais íntimo: a construção da identidade. “Nós nos perdemos na história. Quando você pensa em Tchernóbil, recai sobre o mesmo ponto: quem somos nós?” (Guenádi Gruchevói, deputado do Parlamento bielorrusso, diretor da Fundação para as Crianças de Tchernóbil)

Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch. Tradução de Sonia Branco. Companhia das Letras, 383 páginas, R$ 39,90.

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Pra você não se perder no bairro

Finalmente fiz minha estreia com o Nobel de Literatura de 2014. Não conhecia a obra de Modiano e Pra você não se perder no bairro foi o primeiro livro dele a chegar à minha estante. Uma obra curta (são só 142 páginas), breve, direta.

Jean Daragane é um escritor sexagenário avesso à convivência, mas é obrigado a se confrontar com o outro depois que um desconhecido o contata para devolver uma caderneta de endereços e telefones que pertence ao protagonista. O homem insiste com perguntas sobre alguns dos nomes que aparecem no livreto (eles estariam relacionados a um suposto crime), mas Daragane repete com veemência que não os conhece – depois ele já não tem tanta certeza assim. “Por que pessoas que você nem imaginava existirem, com quem cruzou uma vez e nunca mais irá rever, cumprem, nos bastidores, um papel importante na sua vida? Pois graças a esse sujeito ele conseguira reencontrar Annie.”

modianoA história faz o escritor viajar à infância. Ele exuma partes do passado que nem sequer sabia existirem. O leitor acompanha a névoa das reminiscências serem afastadas e descobre, junto com o protagonista, que a amnésia muitas vezes é proposital, recurso de sobrevivência. O livro beira uma investigação. Daragane quer esclarecer a possibilidade de ter havido um crime – do qual ele, inclusive, pode ter sido a vítima – e ao mesmo tempo quer desvendar a própria identidade. “Sorriu para Daragane, um sorriso um tanto irônico, e Daragane sorriu também ao pensar que aquele homem de cabelos brancos curtos, de porte militar, e sobretudo com um olhar azul mais franco, fora – como ele mesmo dizia – o seu vizinho mais próximo.”

De um lado, é uma história de versões; cada um conhece um lado, uma sombra, um reflexo. Por outro, é uma narrativa que evoca memórias, zonas cinzentas da nossa existência; as lembranças podem até ter existido puras e intactas, mas sofrem modificações a cada vez que são revisitadas – ou em partes esquecidas. Comum aos dois lados? A dúvida. Modiano não parece ser um autor pra quem procura respostas. “Passados quinze anos, Daragane já não tinha certeza quanto à cor daquele carro. Bege? Sim, certamente.”

Pra você não se perder no bairro, de Patrick Modiano. Tradução de Bernardo Ajzenberg. Rocco, 142 páginas, R$ 20.

Fugitiva

Fugitiva - Alice MunroLogo depois do Nobel de Literatura de 2013 ser entregue à canadense Alice Munro, o escritor americano Bret Easton Ellis publicou em sua conta no twitter que a autora é “completamente superestimada” e chamou a premiação de piada. Vamos com calma. É verdade que o fato de a escritora ter recebido um Nobel vai atrair leitores que talvez antes considerassem a obra dela um tanto insossa, mas Munro certamente está no rol da boa literatura. Talvez seja só algum exagero dizer que ela é a versão contemporânea dos russos (“a nova Tchekhov”), autores que melhor conseguiram captar a alma humana. Nem tanto.

Fugitiva é um dos livros que a consagrou como contista. São oito narrativas breves sobre relações e interações. O ponto alto da entrega do Nobel para Munro talvez tenha sido justamente o reconhecimento do conto, não mais a valorização absoluta do romance. Nesta obra, as protagonistas são mulheres que se vêm obrigadas a encarar o passado para destrancar o presente. Uma delas, Juliet, aparece em três histórias diferentes – o leitor acompanha os efeitos e as consequências de uma decisão. Diferente dos outros contos, nos quais o futuro é apenas sugerido.

Há um trabalho apurado da autora na construção dos personagens, que carregam uma angústia e um desequilíbrio discreto, no geral causados pela mentira. As verdades que deixaram de ser contadas, por elas ou pro outros, e as mentiras que cada uma das personagens preferiu deixar pra lá aparecem como fantasmas mais ou menos nítidos. Mas não há desespero. Como cada um de nós, que encaixa na rotina o tempo de sentir os efeitos das escolhas, estes personagens também lidam com o incômodo como parte dos encargos diários. Os contos não são dedicados aos sentimentos, são dedicados à vida humana, que, inevitavelmente, é carregada deles.

A comparação de Alice Munro com os autores clássicos russos vem, provavelmente, do retrato de costumes que a captação da essência dos personagens acaba por construir. As reações das protagonistas são fruto também de um ambiente social, que se desloca à medida que a paisagem canadense é alterada nas histórias. Mas as figuras são marcantes a ponto dos leitores esquecerem o entorno e se concentrarem em nada mais que a alma humana na página do livro.

Não vou alardear como Jonathan Frazen, que em uma resenha lançou em tom de propaganda “Leia Munro! Leia Munro!”. Mas deixo minha sugestão para que um espaço na estante seja reservado a ela.

Fugitiva, Alice Munro. Tradução de Sergio Flaksman. Companhia das Letras, 380 páginas, R$ 47,90.

Doris Lessing

Deve estar divertido o encontro de Doris Lessing com José Saramago, rindo discretamente do chega-pra-lá que deram em convenções conservadoras e normativas. Há vozes que nunca deveriam se calar, mas quando uma delas se vai só resta comemorar o consistente eco que deixaram.

A escritora britânica que nasceu onde hoje é o Irã morreu aos 94 anos e felizmente nos deixou 50 romances. O Põe na Estante falou há pouco tempo de As Avós, uma obra belíssima, cheia de transgressões encantadoras.

Doris Lessing é considerada uma das escritoras mais influentes do século XX. E não há dúvidas nisso – e não porque ela venceu o Nobel de Literatura de 2007. A autora rompeu com a dominância masculina dentro e fora das narrativas, mas não quis ser lembrada por isso. Queria mesmo é que seus leitores captassem o ser humano em cada página que ela escreveu. Descreveu os humores e os amores – não como os russos, que foram na profundeza da alma, mas com a sabedoria de quem percebe nos gestos, nas palavras e nas minúcias a essência do que há de mais humano.

Eis uma imortal, independente de qualquer academia de Letras.

“Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão. Aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala”.
José Saramago