Carta de amor aos livros

Destacado

Ainda repercute o apelo feito pelo editor da Companhia das Letras, Luis Schwarcz, para que as pessoas divulguem livros, falem sobre livros e deem livros de presente. Enquanto muita gente embarcou na campanha, com hashtag e tudo (#dêlivrosdepresente e variações), também teve gente que aproveitou o gancho para criticar a postura das grandes editoras.

IMG_5712Na entrevista que deu à Folha de S.Paulo, o presidente do grupo editorial disse terem sido poucas as mensagens contrárias à carta, mas admite ter recebido críticas – por não prestigiar livrarias pequenas, por ter sido generoso demais no texto com as redes de livrarias e pela ganância das grandes editoras.

De qualquer forma, o texto levanta questões importantes, como os desafios que editoras e livrarias têm pela frente para se manterem vivas. Nós, como leitores, podemos contribuir com ideias, com reflexões e, claro, com leituras. Sigamos!

Aliás, o que você está lendo?

=====

Para quem perdeu, reproduzo abaixo, na íntegra, a carta do editor:

Cartas de amor aos livros

O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso. Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável, mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo. Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos— gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.

Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, já que as maiores editoras são, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os sócios dessas editoras têm capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como somos também idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores.

Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos e contribuíam com sua energia para o que construímos no nosso dia a dia. A editora que sempre foi capaz de entender as pessoas em sua diversidade, olhar para o melhor em cada um e apostar mais no sentimento de harmonia comum que na mensuração da produtividade individual, teve que medir de maneira diversa seus custos, ou simplesmente cortar despesas. Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir.

Sem querer julgar publicamente erros de terceiros, mas disposto a uma honesta autocrítica da categoria em geral, escrevo mais esta carta aberta para pedir que todos nós, editores, livreiros e autores, procuremos soluções criativas e idealistas neste momento. As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas mídias sociais e vídeos, feitos de coração aberto, nos quais a sinceridade prevaleça, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial atenção a seus protagonistas mais frágeis, são mais que bem-vindos: são necessários. O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amor aos livros.

Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise, cumprindo com seus compromissos, e também nas livrarias que estão em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer. Divulguem livros com especialíssima atenção ao editor pequeno que precisa da venda imediata para continuar existindo, pensem no editor humanista que defende a diversidade, não só entre raças, gêneros, credos e ideais, mas também a diversidade entre os livros de ambição comercial discreta e os de ambição de venda mais ampla. Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como será nossa vida sem os livros minoritários, não só no número de exemplares, mas nas causas que defendem, tão importantes quanto os de larga divulgação. Pensem nos editores que, com poucos recursos, continuam neste ramo que exige tanto de nós e que podem não estar conosco em breve. Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva.

Presentear com livros hoje representa não só a valorização de um instrumento fundamental da sociedade para lutar por um mundo mais justo como a sobrevivência de um pequeno editor ou o emprego de um bom funcionário em uma editora de porte maior; representa uma grande ajuda à continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu, desde cedo: o livro.

Anúncios

Problemas financeiros nas grandes livrarias brasileiras

Destacado

A rede de livrarias Saraiva, que atua no Brasil desde 1914 e é hoje a maior do país, pede recuperação judicial por causa da uma dívida de quase R$ 675 milhões. Não foi uma surpresa. Vinte lojas já tinham sido fechadas, enquanto o grupo tentava renegociar, sem sucesso, as pendências com os credores. O próprio Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL) já tinha anunciado que só voltaria a negociar com a Saraiva quando ela entrasse com o pedido de recuperação. Livraria Cultura - Conjunto Nacional

A notícia vem na sequência de outro baque para o setor, o pedido, também de recuperação judicial, da Livraria Cultura – a dívida, nesse caso, é de R$ 285 milhões. Segundo o SNEL, as duas redes devem, juntas, R$ 325 milhões para as editoras. Imagine a dificuldade para as editoras, já que as duas redes são responsáveis por 40% das compras de livros, de acordo com o Sindicato.

Apostas para 2014

Depois de alguns dias de férias, o Põe na Estante está de volta e começa este post desejando a todos um ano de boas leituras e de estante cheia!estante de livros imagem

Os jornais terminaram o ano passado cheios de apostas para 2014, inclusive no universo literário. Há os apocalípticos, que já alguns anos anunciam o fim do livro de papel, e os que se limitam a antecipar gêneros ou autores que devem receber destaque, além de tendências formais e de mercado para livros digitais ou analógicos. Aqui vão algumas promessas que merecem destaque, especulações e questionamentos.

*Os romances policias estão a todo vapor. Em 2013, algumas editoras já aumentaram as fichas de aposta no gênero, inclusive com a criação de selos exclusivamente para a publicação desse tipo de livros. O destaque policial vem dos países nórdicos, de onde têm saído grandes best-sellers; este ano, o Brasil deve receber um festival de filmes e livros policiais produzidos na região. Vamos ficar de olho na agência de notícias Vikings of Brazil, que divulga a literatura nórdica por aqui e a brasileira por lá, para saber os detalhes desse evento. Uma reportagem do jornal O Estado de S.Paulo sobre o assunto (aqui) adianta alguns dos lançamentos policiais previstos para os próximos meses.

*Depois de um ano em que o Brasil foi destaque em eventos internacionais, como a Feira de Frankfurt, autores tupiniquins esperam que a divulgação da literatura nacional estimule a exportação de livros. A esperança é de que as traduções de romances brasileiros não tenham sido apenas um esforço para expor os títulos no evento, mas a abertura de uma promissora porta no mercado editorial internacional.
p.s.: Este ano, a homenageada da Feira de Frankfurt é a Finlândia. Mais um ponto para os nórdicos em 2014!

*O mercado de e-books deve enfrentar novos desafios, entre eles aprimorar a publicação de livros ilustrados, que fizeram pouco sucesso na versão para as telas. Além disso, os livros digitais precisarão reconquistar mais adeptos (ou procurar novos públicos-alvo), já que em 2013 o lucro das editoras com os e-books, crescente já há alguns anos, estagnou pela primeira vez. Uma preocupação a mais para os editores, que já estão assustados com a velocidade com que a Amazon está engolindo o mercado.

e-book na estante*Ainda sobre e-books, eis a aposta do mercado para 2014: o modelo de assinatura/ aluguel de livros digitais, uma espécie de Netflix da literatura. A ideia surgiu entre muitas dúvidas sobre como seria feita a cobrança, como os autores receberiam os direitos autorais etc. Mas algumas empresas já colocaram a experiência online em prática. A Oyster, por exemplo, oferece uma biblioteca de cem mil títulos por uma assinatura de US$ 9,95 por mês (leia quantos puder!); a Entitle oferece pacotes de assinatura e vende os e-books indivualmente, para aqueles que preferem ter o livro; e o Scribd oferece leituras ilimitadas por US$ 8,99 ao mês. Será que a ideia vai pegar por aqui?

*Seguimos no universo digital, mas agora nas redes sociais. Uma passada rápida por uma aposta que não é exatamente de 2014, porque já está firme e forte em vários países, mas pode ganhar espaço entre o público brasileiro. O que você acha das redes sociais de leitores? Com troca de informações sobre livros, autores, editoras… A Orelha de Livro é uma nova página nacional desse tipo (antes, como bem lembrou o leitor Paulo Laubé, veio o Skoob). Vocês conhecem outras?

*E o Põe na Estante termina essa lista de apostas para 2014 com o que, na verdade, é mais um pedido. Que se repitam insistentemente e se espalhem indiscriminadamente iniciativas como a Restaurant Book, que acontece até dia 31 de janeiro aqui na cidade de São Paulo. Restaurantes, bares e lanchonetes oferecem 10% de desconto para quem doar um livro. Os títulos arrecadados seguem para escolas e bibliotecas públicas. A lista dos lugares que participam da campanha você encontra aqui.

Bom 2014!