Podcast – A Criança no Tempo, de Ian McEwan

Destacado

Chegamos ao terceiro episódio do Põe na Estante com o terceiro romance do premiado escritor britânico Ian McEwan. A Criança no Tempo tem o escritor de livros infantis Stephen Lewis como protagonista. Ele nunca pensou que uma ida ao supermercado pudesse transformar a vida, mas é o que acontece quando a filha dele, Kate, uma menina de três anos de idade, desaparece completamente. As portas do estabelecimento são fechadas às pressas, uma busca intensa é feita no entorno, mas a garota some completamente. Quando ele dá a notícia à esposa, Julie, o leitor começa a mergulhar na dor e no desamparo daquela família agora com um espaço vazio. Stephen e Julie vão se isolando, ele na tentativa de encontrar a filha a qualquer custo, fazendo as próprias buscas, batendo de porta em porta; ela em uma depressão que a deixa apática, sentada na poltrona da casa, até conseguir reagir. O casamento desenvolve fissuras profundas, os silêncios vão tomando conta e a perda nunca é mencionada para evitar que ela fique concreta demais. A Criança no Tempo foi publicado em 1987 e relançado em 2018 pela Companhia das Letras, por ocasião dos 70 anos do autor. É ele o tema deste episódio, em que eu recebo os jornalistas Thaís Manarini e Renan Sukevicius.

Anúncios

Podcast – A Uruguaia, de Pedro Mairal

Destacado

O segundo episódio do podcast Põe na Estante tem A Uruguaia, livro do argentino Pedro Mairal, como tema. Segundo romance do escritor, esta foi a obra que o fez mais conhecido. Mairal é hoje considerado pela crítica um dos principais nomes do novo boom literário da América Latina.  No livro, o escritor Lucas Pereyra é quem nos conta a história das fantasias que ele alimenta a respeito de uma jovem mulher que conheceu quando atravessou o Rio da Prata para um festival literário. O protagonista precisa cruzar mais uma vez de Buenos Aires para Montevidéu para receber 15 mil dólares de adiantamento pelo trabalho e, em meio a um casamento desgastado e monótono e a um bloqueio criativo, almeja encontrar a moça novamente. O romance dura o tempo da viagem, entre a ida e a volta, mas tem direito a idas e vindas no tempo para que o narrador possa compartilhar com o leitor memórias e contexto. Para conversar sobre A Uruguaia, eu recebo os jornalistas Juliana Kunc Dantas e Pablo Ribeiro. Nesta primeira temporada, o tema é boas-vindas e é sempre um dos convidados quem escolhe o livro da vez.

Podcast – A Vegetariana, de Han Kang

Destacado

Põe na Estante agora tem podcast. A cada quinze dias, convido duas pessoas a lerem o mesmo livro que eu e sentamos para trocar impressões, ideias e questões sobre a obra. Nesta primeira temporada, que terá oito episódios, o tema é “boas-vindas”: como boa anfitriã, sugiro que um dos convidados escolha o livro sobre o qual falaremos, sem restrições. Neste episódio de estreia, os jornalistas Tatiana Vasconcellos e Theo Ruprecht participam de um papo sobre A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang. O podcas testá disponível em YouTube, Spotify, Google Podcasts, Anchor, RadioPublic e Breaker.

Podcast

O Põe na Estante agora tem podcast. Estreou hoje e o primeiro episódio fala sobre A Vegetariana, livro da sul-coreana Han Kang. Tatiana Vasconcellos, Theo Ruprecht e eu conversamos sobre as nossas impressões a respeito deste livro um tanto quanto perturbador.

A temporada de estreia do podcast tem como tema “Boas-vindas”, por isso é sempre um convidado quem escolhe o livro da vez. Nos primeiros oito episódios, obras variadas, brasileiras e estrangeiras, de homens e mulheres, clássicos e contemporâneos.

Você ouve no YouTube ou no Spotify. Depois me conta o que achou ;)

 

Clube do Livro – Episódio 3: “O Sol na Cabeça”

Destacado

O terceiro episódio do Clube do Livro do Põe na Estante fala sobre a obra de estreia do carioca Geovani Martins, O Sol na Cabeça. Os treze contos que ocupam as 120 páginas editadas pela Companhia das Letras já ganharam tradução em pelo menos oito idiomas. A jornalista Gabriela Forte e o economista Luiz Felipe Fustaino ajudam a pensar os porquês de tamanho sucesso. Corre pra ver!

Vozes de Tchernóbil

Eu estava no ônibus quando comecei a ler Vozes de Tchernóbil. Não me esqueço, porque precisei pavozes de tchernobilrar. Passei mal com o relato de Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro Vassíli Ignátienko, que morreu depois de meses definhando em consequência da radiação. Ele foi um dos homens que ajudaram a conter o fogo do reator da usina nuclear de Tchernóbil, na fronteira entre a Ucrânia e Belarus, no dia 26 de abril de 1986, depois que uma série de explosões destruiu a central elétrica atômica e espalhou partículas radioativas por toda a URSS e por diversas regiões da Europa. É em detalhes que Liudmila conta os efeitos nefastos dos átomos radioativos no corpo do marido. “Nenhuma das enfermeiras tinha coragem de se aproximar dele, de tocá-lo. Se era preciso fazer algo, elas me chamavam. E eles… Eles fotografavam… Para a ciência, diziam.” (Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko)

O episódio elevou a estatística de 82 para seis mil casos de doenças oncológicas a cada cem mil habitantes na região. Esses os números conhecidos, porque essa história é marcada por segredos.

A jornalista Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de literatura de 2015, dá voz e nome a mães, filhas, filhos, amigos, esposas das vítimas de uma das piores catástrofes do século XX. Historiadores, cientistas e políticos que vivenciaram o episódio ou as consequências dele também contribuem com seus depoimentos nesse livro que une as dimensões histórica e humana da tragédia. Moradores dos arredores de Tchernóbil, que viram suas produções agrícolas e suas criações de animais serem devastadas pela radiação, contam suas histórias – uns que decidiram ir embora quando o governo evacuou a área, e outros que insistiram em ficar, porque não sabiam viver de outra forma ou em outro lugar.

Os relatos, reproduzidos fielmente pela autora, são cheios de crueza e de dor. Alguns em tom desolado, de lamentação, outros carregados de resiliência; há os que sentem raiva, e os que sentem tristeza; há os que se arrependem, e os que até hoje não se conformam. Na maioria, um senso latente de patriotismo, a certeza de que os soviéticos que atuaram no combate ao incêndio que sucedeu a explosão e aqueles que atuaram depois como liquidadores, trabalhando para aterrar o reator e conter a disseminação da radiação, cumpriram seu dever, apesar do descaso das autoridades e da falta de transparência – a omissão de informações e a tentativa de diminuir a gravidade da tragédia potencializaram seus efeitos destruidores. “Estávamos habituados a acreditar. Eu sou da geração pós-guerra, que cresceu nessa fé. De onde veio essa fé? Nós vencemos uma guerra tão terrível! O mundo todo nos reverenciou. Isso de fato ocorreu. Nas cordilheiras, esculpiam sobre as rochas o nome de Stálin! O que era isso? Um símbolo! O símbolo de um grande país.” (Marat Filíppovitch Kokhánov, ex-engenheiro-chefe do Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Belarús)

Em meio à Guerra Fria, as vítimas de Tchernóbil estavam preparadas para ataques do inimigo, para se proteger de um bombardeio, eram treinadas para sobreviver a hostilidades estrangeiras, mas nunca tinham esperado o que aconteceu, nem cogitavam serem vítimas do descaso dos próprios conterrâneos. Ucranianos e bielorrussos passaram a ser estigmatizados, olhados de esgueira, recebidos com ressalvas. A explosão destruiu a fé que muitos ainda tinham no comunismo e redesenhou o que muitos entendiam por guerra. O acidente nuclear marcou esses soviéticos no que há de mais íntimo: a construção da identidade. “Nós nos perdemos na história. Quando você pensa em Tchernóbil, recai sobre o mesmo ponto: quem somos nós?” (Guenádi Gruchevói, deputado do Parlamento bielorrusso, diretor da Fundação para as Crianças de Tchernóbil)

Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch. Tradução de Sonia Branco. Companhia das Letras, 383 páginas, R$ 39,90.

Hibisco Roxo

Foi bem difícil chegar à última página. Hibisco Roxo é uma história na Nigéria e da Nigéria, Hibisco roxomas os personagens construídos por Chimamanda Adichie são capazes de gerar identificação em leitores do mundo todo. Com a empatia, vem dor, raiva – muita raiva! – e alívio, vez ou outra. Quem lê também desabrocha junto com os adolescentes e as flores desse livro.

Kambili, uma garota na faixa dos quinze anos, é quem narra a história de como a vida dela um dia mudou. Irmã de Jaja, mais velho, é filha de uma mãe amorosa e que, na medida do possível, tenta protegê-la de um pai abusivo. Fundamentalista católico, o pai é rigoroso ao extremo, cobra dos filhos bom desempenho na escola e um comportamento cristão exemplar; desconta as frustrações também na esposa. É um homem que rejeita os tradicionalistas, mesmo que isso signifique renegar o próprio pai pagão, e abnega todo tipo de sincretismo, parte essencial da cultura nigeriana, reproduzindo as verdades aprendidas com colonizadores europeus. Ele é figura dúbia, que divide tanto Kambili, quanto os leitores. A repressão e o abuso tentam ser compensados por gestos de amor e proteção – e ele de fato parecer querer bem os filhos. A covardia de espancar a mulher e a prole é contraposta à coragem de manter o jornal do qual ele é dono crítico à ditadura militar que se instaura na Nigéria. “Saí do meu quarto no mesmo segundo que Jaja saiu do dele. Ficamos no corredor, vendo Papa descer. Mama estava jogada sobre seu ombro como os sacos de juta cheios de arroz que os empregados da fábrica dele compravam aos montes na fronteira com Benin.”

Jaja e Kambili não têm amigos, fazem poucas atividades fora de casa, quase nenhuma sem a família. Cumprem um rígido cronograma que inclui horas diárias de estudo. São silenciosos e obedientes. Movidos pelo medo, não elevam a voz, sorriem pouco, só respondem o que lhes é perguntado. O irmão é mais ousado, as vezes desafia o pai e, diferente de Kambili, não nutre por ele qualquer afeto. “Os olhos de Jaja brilharam quando ele falou dos hibiscos, quando os tirou da geladeira para que eu pudesse tocar os galhos frios e úmidos. Ele contara a Papa sobre eles, mas mesmo assim os colocou rapidamente de volta na geladeira quando o ouviu se aproximando.”

As mudanças são semeadas quando os dois, sob a justificativa de fazer um passeio católico, vão a outra cidade passar uns dias na casa de tia Ifeoma, professora universitária, irmã do pai. Eles convivem com três primos irreverentes, que se sentem à vontade para rir alto e reclamar, algo que parecia impensável. Ainda se deparam com uma realidade que foge dos padrões estabelecidos dentro dos muros do casarão em que foram criados com todos os tipos de luxo. Descobrem a crise política e econômica de um país assombrado pela repressão ditatorial, infestado pela corrupção, tomado por greves e protestos. Encontram uma Nigéria em que as pessoas batalham para conseguir se alimentar, racionam água, se apertam em pequenos cômodos… O choque é social, cultural, emocional. Mas dele desabrocha uma nova perspectiva. O hibisco roxo que dá nome ao livro é o símbolo da transformação na qual mergulham Jaja e Kambili.

A tirania aparece sob vários prismas, em micro e macro-contextos, sempre com crueza. A violência, da mesma forma, é abordada dentro e fora de casa, das práticas físicas à aniquilação de valores. Chimamanda é habilidosa. Levanta bandeiras sem fazer panfletos, desperta questionamentos sem expor perguntas, desafia e critica sem elevar o tom. Com um texto firme, fluido e direto, a escritora nos presenteia com uma obra belíssima e implacável, sem perder a sutileza da entrelinha.

Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie. Tradução de Julia Romeu. Companhia das Letras, 321 páginas, R$ 42,90.