Podcast – A Criança no Tempo, de Ian McEwan

Destacado

Chegamos ao terceiro episódio do Põe na Estante com o terceiro romance do premiado escritor britânico Ian McEwan. A Criança no Tempo tem o escritor de livros infantis Stephen Lewis como protagonista. Ele nunca pensou que uma ida ao supermercado pudesse transformar a vida, mas é o que acontece quando a filha dele, Kate, uma menina de três anos de idade, desaparece completamente. As portas do estabelecimento são fechadas às pressas, uma busca intensa é feita no entorno, mas a garota some completamente. Quando ele dá a notícia à esposa, Julie, o leitor começa a mergulhar na dor e no desamparo daquela família agora com um espaço vazio. Stephen e Julie vão se isolando, ele na tentativa de encontrar a filha a qualquer custo, fazendo as próprias buscas, batendo de porta em porta; ela em uma depressão que a deixa apática, sentada na poltrona da casa, até conseguir reagir. O casamento desenvolve fissuras profundas, os silêncios vão tomando conta e a perda nunca é mencionada para evitar que ela fique concreta demais. A Criança no Tempo foi publicado em 1987 e relançado em 2018 pela Companhia das Letras, por ocasião dos 70 anos do autor. É ele o tema deste episódio, em que eu recebo os jornalistas Thaís Manarini e Renan Sukevicius.

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Doris Lessing

Deve estar divertido o encontro de Doris Lessing com José Saramago, rindo discretamente do chega-pra-lá que deram em convenções conservadoras e normativas. Há vozes que nunca deveriam se calar, mas quando uma delas se vai só resta comemorar o consistente eco que deixaram.

A escritora britânica que nasceu onde hoje é o Irã morreu aos 94 anos e felizmente nos deixou 50 romances. O Põe na Estante falou há pouco tempo de As Avós, uma obra belíssima, cheia de transgressões encantadoras.

Doris Lessing é considerada uma das escritoras mais influentes do século XX. E não há dúvidas nisso – e não porque ela venceu o Nobel de Literatura de 2007. A autora rompeu com a dominância masculina dentro e fora das narrativas, mas não quis ser lembrada por isso. Queria mesmo é que seus leitores captassem o ser humano em cada página que ela escreveu. Descreveu os humores e os amores – não como os russos, que foram na profundeza da alma, mas com a sabedoria de quem percebe nos gestos, nas palavras e nas minúcias a essência do que há de mais humano.

Eis uma imortal, independente de qualquer academia de Letras.

“Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão. Aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala”.
José Saramago