Balada Literária 2014

Balada Literária abertura

Divulgação – site do evento.

Começa hoje, às sete e meia da noite, a nona edição da Balada Literária, evento organizado pelo escritor Marcelino Freire. A abertura será no Teatro Oficina, em São Paulo, com a montagem de O Anão do Caralho Grande, de um dos homenageados deste ano, o dramaturgo Plínio Marcos. É a primeira vez que a festa não começa no bairro em que nasceu, a Vila Madalena.

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, obra internacionalmente reconhecida, traduzida para 13 idiomas, também será celebrada nessa edição. Ela será tema da primeira mesa de debates, amanhã, dia 20 (aproveitem que é feriado!), na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, e terá a participação da filha da escritora negra que era moradora de uma favela paulistana. Seu livro, inclusive, foi inspiração para o vídeo de divulgação da Balada Literária 2014. Esse aqui, ó!

A extensa programação, totalmente gratuita, vai até domingo, dia 23. Peças de teatro, lançamentos de livros, mesas de debates, shows e saraus. A lista completa, com horários e endereços, está disponível no site do evento. Boa Balada!

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Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang

Ligue os Pontos - Gregorio DuvivierComediante, roteirista, ator, colunista, cronista e poeta. Gregorio Duvivier, um dos autores do popular Porta dos Fundos, mistura muitos de seus papéis em Ligue os Pontos. Fala de amor romântico, faz piada; filosofa sobre o dia a dia e sobre os quereres, concretiza rotinas; especula sobre as origens, ironiza; transforma a partida do carro em poesia, e pokemon, em elogio máximo.

No livro, o cotidiano está retratado em detalhes que costumam passar batido, na orelhada na conversa dos outros, no relance na cena do canto, ou nas atividades, nos objetos e nas grifes que estão todos os dias ao alcance. “o ipod o iphone o iogurte grego o mate de galão ou o miojo” que parecem não ter importância alguma, até alguém conseguir usá-los como parâmetros de modernidade para falar de amor. Sabe-se lá como se faz isso, mas Duvivier faz. Parece engraçado? E é também.

O amor e a vida viram figuras palpáveis, concretas e com marca. Como realmente são. As referências saem da mesa, da escrivaninha, da trilha sonora, da televisão. Dos nuggets ao icequê, dos beatles ao doug. Como cenário, o Rio de Janeiro. Com ruas, avenidas e números devidamente indicados para quem levar à risca a história de ligar os pontos e quiser tentar reconstruir o roteiro (mental) do escritor.

As descrições, cheias de metáforas e comparações, são sem dúvida um ponto alto de Gregorio Duvivier, muito bom em criar imagens literárias, transformando a avenida niemeyer no chile fluminense, e a chegada das aleluias que rodeiam as lâmpadas em ritual de medo e adoração.

A tarefa de ligar os pontos fica para você, leitor, que pode encontrar tudo ou nada nas páginas. Como o autor quando ligou “os pontos sardentos das suas costas na esperança de que a caneta esferográfica revelasse” tantas imagens esperadas, o leitor deste livro também pode se deparar com seres mitológicos, um mapa do tesouro ou uma constelação. Depende do caminho que a sua Bic percorrer.

Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang, Gregorio Duvivier. Companhia das Letras, 85 páginas, R$ 29,50.

Primeira Página 2014 #2

Reprodução do site do projeto.

Reprodução do site do projeto.

O projeto Primeira Página, que reúne escritores para um bate-papo com o público, tem a segunda edição de 2014 marcada para a próxima terça-feira, 29 de abril. Dessa vez, o convidado é o escritor amazonense Milton Hatoum, para falar sobre sua obra e o processo de criação literária.

O encontro será no Teatro Tuca e os ingressos custam 50 reais. Haverá duas sessões, uma de manhã, às 10h30, e uma à noite, às 20h. Os produtores Clovys Torres e Cândida Morales e a atriz Denise Weinberg participam desse Primeira Página, além do jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Da Poeta ao Inevitável

Da Poeta ao InevitávelNo canto esquerdo da minha estante, há um nicho exclusivo para os novos autores. Escritores estreantes que prometem perpetuar a boa literatura. Muitos deles compartilham comigo a profissão – devem ter escolhido o jornalismo porque já sabiam que tinham algo dizer. E a melhor parte de ler alguém pela primeira vez é não saber o que esperar. Somos conquistados por gratas surpresas. Foi assim com Da Poeta ao Inevitável (PS: Entres Mins, El_s e Seis Deusas), da jovem jornalista Maria Giulia Pinheiro.

Cada pedaço do título nomeia um dos grupos de poemas que compõem a obra. Os primeiros textos são amor, sensualidade e sexo, tudo com muita intensidade, do tipo que deixa marcas na pele e na alma, sem controle e sem palavras medidas. Mas está mais ao fim do livro o que ressoa com mais força – em Entre Mins e El_s.

Em Entre Mins há mensagens muito pessoais, desabafos cheios de subjetividade, confidências sobre o que se fez, o que não se fez e o que se acreditou ter feito, como numa análise demorada no espelho em que nos pegamos tentando identificar de onde vem cada pedacinho. Conversas da autora com ela mesma, com a vida e com o universo.

“Me ensina a dançar todo dia,
que não aguento ter de renascer
cada manhã.
Meus tropeços sempre novos e sozinhos
são tristes, Deus,
e queria tanto que fossem dança,
que flutuassem nas mãos de alguém.

(…) Me tira pra dançar, Deus,
que já não suporto
meu solo.”

Em El_s o olhar da escritora aponta pra fora, não mais para dentro. O diálogo com o mundo e com o universo sobe o tom, fica mais firme: resultado de um posicionamento que vem de uma convicção racional, não mais emocional. Soa como uma bronca. É político, é feminino, é feminista. Estão ali os gêneros, a violência, o aborto, a concepção e outras profundezas do mundo social que engolimos em silêncio.

Mas se algo não tem destaque em Da Poeta… é justamente o silêncio. Pode-se pecar por falar demais e sem jeito, mas não por ficar quieto. Opiniões fortes demais para isso. Uma obra de quem fala por si e pelo outro, mas que também sabe ouvir. Não há silêncios, mas há espaços. Vazios que podem ser preenchidos pelo outro, como se a autora dissesse que está disposta para o mundo – sobretudo, eu diria, para o debate. Não é a toa que o texto da orelha termina com o endereço eletrônico da escritora. Sinal dos novos tempos, nos quais autor e leitor são um só, e o escritor é todo ouvidos…

Da Poeta ao Inevitável (PS: Entre mins, El_s e Seis Deusas), Maria Giulia Pinheiro. Patuá, 168 páginas, R$ 30.

Vermelho Amargo

Sangue, Chapeuzinho, batom, coração, cereja, tomate e, com algum esforço, xarope contra tosse. É o que vermelho me lembra. Nessa ordem. Intenso, mas não amargo (nem o xarope, que, ao contrário, era exageradamente doce). Diferente de Bartolomeu Campos de Queirós, que carrega o vermelho de lembranças, de memórias, de melancolia e de dor, muita dor. E o autor avisa, caro leitor, que é no papel que ele alivia tanto amargor, como dizendo prepare-se para essas páginas de sofrimento.

Vermelho Amargo - Batolomeu de QueirósO início é logo brusco. A dor primordial fica explícita: a mãe morre. O personagem, também narrador, é ainda criança. E o lugar da mãe é ocupado por uma madrasta, que passa a dividir a casa com ele, com o pai dele e com os cinco irmãos dele. Uma família inteira representada por um tomate. “Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós. Seis.”

Está aí, bem claro, por que a madrasta nunca será como a mãe. É simples. “Antes, minha mãe, com muito afago, fatiava o tomate em cruz, adivinhando os gomos que os olhos não desvendavam, mas a imaginação alcançava. Isso, depois de banhá-los em água pura e enxugá-los em pano de prato alvejado, puxando seu brilho para o lado do sol.”

A saudade da mãe, a indiferença da madrasta e a ausência do pai, bêbado, fazem doer de formas diferentes cada um dos irmãos. Eles se apegavam no que tinham de menos dolorido. A irmã maior não desgrudava das agulhas, costurava e bordava sem parar – “(…) não erguia a cabeça quase nunca.” O primeiro irmão mastigava vidro, depois cuspia os vidros triturados, moídos e “(…) e o chão parecia ladrilhado com pedrinhas de brilhante.” E ele, nosso protagonista, era inundado por sonhos e pelo vício de amar, passava os dias tentando encontrar exemplos de amor e procurando explicações no amor para os sentimentos que o preenchiam. Mas nada aplacava a angústia de sentar-se à mesa e ter que encarar o tomate fatiado. “O tomate coroava nossos pratos. Parecia um reino em que o arroz, o feijão, a carne, a abóbora eram os súditos. E o tomate – pedaço de um rei sacrificado – reinava sobre todas as coisas. O tomate insistia em dar sustância às nossas refeições. Desde sempre imaginei a raiva vestida de vermelho, empunhando uma faca.”

O leitor acompanha a evolução familiar à medida em que a fatia de tomate perde um pouco da transparência. Os irmãos vão deixando a casa e a fruta vermelha passa a ser retalhada em cada vez menos pedaços. Mas não pense que isso aplaca a dor, aqui não há alívio. Não, pelo menos, até a própria partida. Depois, cada um constrói seu caminho. “Desconheço o depois de minha despedida. Não se caminha sobre a sombra ao entardecer. (…) Esquecer é desexistir, é não ter havido. Ao me interrogar se tomate ainda há, não me fecho no silêncio. Confirmo que minha primeira leitura se deu a partir de um recado rabiscado pela faca no ar cortando em fatias o vermelho.”

O sofrimento impresso em Vermelho Amargo é lírico. A lágrima do leitor é de compaixão. O livro é belíssimo.

Vermelho Amargo, Bartolomeu Campos de Queirós. Cosac Naify, 69 páginas, R$ 39,90.

Noite de Estreia #1

Noite de EstreiaA Companhia das Letras criou um novo modelo de noite de autógrafos. Começou ontem, no Cine Joia, em São Paulo. Quase uma balada literária. A Noite de Estreia #1 lançou Nu, de Botas, do Antonio Prata, e Ligue os Pontos, do Gregorio Duvivier.

O palco da casa noturna virou cenário de programa de entrevistas, a pista virou um auditório e o bar continuou como o bom e velho tirador de sede. A proposta era a seguinte: primeiro, um talk show entre os dois autores; depois, uma festa com discotecagem dos próprios editores da Cia. das Letras. O ingresso para a festa, cinquenta reais, dava direito aos dois livros lançados.

Noite de Estreia 1A escolha dos nomes para participarem juntos do lançamento deu final feliz. Prata e Duvivier pareciam entrosados, provavelmente uma afinidade vinda da ironia que cada um deles, a seu modo, executa tão bem. Funcionou e divertiu.

No fim, teve sessão de autógrafos. Todo mundo com cara de feliz pelas novas aquisições para a estante – ainda mais com a conquista de algo que agrega tanto valor: uma canetada do autor na folha de rosto.

Vamos acompanhar os próximos lançamentos.

Velórios

VelóriosRodrigo Melo Franco de Andrade é um ficcionista de carreira curta. Curtíssima. Um livro, nada mais. O autor foi o primeiro diretor do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Deixou como legado literário a obra Velórios, de 1936. A primeira edição teve apenas 200 exemplares, pagos pelo próprio escritor. Mas logo ele se arrependeu, quis tirá-los de circulação. Felizmente, restaram alguns e novas edições vieram. Rodrigo foi contemporâneo e amigo de grandes modernistas. Foi Manuel Bandeira quem deu o título de Velórios e, segundo ele, dos oito contos da obra, apenas dois foram totalmente inventados.

Rodrigo convida o leitor a participar de oito velórios, descritos, no geral, a partir de diálogos triviais. As palavras sem importância revezam o tom de drama, de comicidade e de melancolia que permeia as mortes desses personagens. Há pouco de tragédia e muito do que seria um conto do realismo machadiano, não fosse a ironia modernista que invade cada um desses rituais de morte. Haja papo furado em torno do caixão… ” – Quando eu venho para passar uma noite assim, nunca deixo de ser prevenido. Trago umas três carteiras de cigarro e outras tantas caixas de fósforo, porque conheço muito essas coisas. Todo mundo pega a fumar, na conversa, e não demora a acabar com o maço que traz no bolso. Daí mais um pouco está é filando da gente e não há cigarro que chegue.”

Em Velórios, há contos longos; outros breves. Em Quando minha avó morreu, o autor é econômico. Descreve em cinco páginas o conflito do jovem Totônio. De um lado, um adolescente desejoso de viver os prazeres da juventude, trancado no quarto para passar brilhantina no cabelo, preocupado com futilidades. Do outro, o Totônio que recebe a notícia da morte da avó e se veste de preto dos pés à cabeça para fazer jus ao que ele acredita ser um tamanho luto. “Considerei que luto por avó deveria ser forçosamente pesado. Não poderia se resumir num lacinho qualquer no braço. (…) E à medida que planejava vestir-me à altura das circunstâncias, uma excitação imensa foi se apoderando de mim.”

A história mais longa do livro é O Nortista, Rodrigo escreve praticamente um romance em 31 páginas. O “eminente deputado” Hermógenes Viana foi do Pará ao sul do Brasil para fazer carreira e fortuna. Ele viaja para um sítio no interior de Minas Gerais, acompanhado de um médico-assistente, para tratar a tuberculose que o aflige. O conto, narrado pelo médico, relata a relação sem empatia entre patrão e empregado, que se distanciam por seus sotaques e seus valores, ao mesmo tempo em que forçam certa intimidade. O médico se vê cada vez mais inserido na comunidade rural dos arredores, enquanto o patrão despreza com mais intensidade “a mesquinhez e a moleza daquela gente”. “De resto, cada um de nós vivia para seu lado o dia inteiro e restava pouco tempo para nos hostilizarmos.”

A nova edição da Cosac Naify ainda vem com alguns bônus. Uma nota-prefácio de Pedro Dantas e posfácios que incluem uma carta de Mário de Andrade a Rodrigo M. F. de Andrade, e análises de Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido. Todos, de certa forma, embasbacados com o apurado senso de observação com que esse ficcionista descreve um velório à brasileira.

Velórios, Rodrigo M. F. de Andrade. Cosac Naify, 143 páginas, R$ 53.