Caderno de um Ausente

caderno de um ausenteÉ prosa, mas é quase poesia. São palavras, mas é mais ainda silêncio. Caderno de um Ausente é o segundo romance do contista João Anzanello Carascoza. Mais uma vez, ele busca no cotidiano a inspiração para um texto breve e sensível.

O livro é o caderno de um pai de meia-idade para a filha Bia, recém-nascida. Ele acha que não vai conseguir vê-la crescer e, por isso, quer deixar no papel ensinamentos e impressões sobre a vida. Mas, ao invés de ensinar a escolher caminhos, o narrador ensina a questionar; deixa as escolhas em aberto e as lacunas – tão frequentes no dia a dia – também. Trata-se de um pai ponderado e consciencioso, que alerta sem alarmar, orienta sem amedrontar, protege sem cercear, fala sem exagerar e (muitas vezes) silencia sem consternar. “Eu ia te ensinar como desviar das trilhas tortas que vão se colar na sola de tuas sandálias (…)”.

As lembranças também estão ali. Para Bia, esse caderno será ainda um apanhado de memórias filtradas sob o olhar delicado do pai: a presença ou ausência de parentes – vivos ou mortos, os galhos e folhas de uma árvore genealógica, episódios que podem ser perder no tempo e até objetos que talvez carreguem uma narrativa afetiva. “(…) em ti mesmo, Bia, está a brasa de todos os que te antecederam, sob a cor de teus cabelos posso notar, como se antigas tinturas, toda a linhagem de fios loiros e negros e ruivos e grisalhos da família (…)”.

Ao recordar o que passou com lirismo e planejar o porvir com harmonia, Carrascoza transforma esse testamento em canção de ninar. Para enfrentar a morte, silêncio certo e onipresente, fica a esperança de que das palavras floresça a vida. “(…) as palavras têm coragem de mostrar o rosto sorridente enquanto o mutismo lhes rasga  as costas a chicotadas (…)”.

Caderno de um Ausente, de João Anzanello Carrascoza. Cosac Naify: 126 páginas, R$ 34,90.

Carrascoza no Põe na Estante

Olha aí, caro leitor! A última dica de leitura do ano vem do escritor brasileiro João Anzanello Carrascoza. Seu último livro é Caderno de um Ausente, publicado no ano passado e que, em breve, vai ter resenha aqui. Ele gravou um vídeo pro Põe na Estante com uma sugestão – é pra já começar 2016 com leitura boa. Corre lá na nossa página do Facebook, que o vídeo já está online. Um feliz ano novo, cheio de bons livros!

Super Libris

superlibrisDica super bacana pra aprender mais sobre livros, literatura e autores brasileiros. A SescTV, ligada ao Sesc, lançou a série Super Libris em seu canal online (quem é assinante da OiTV também consegue ver na televisão). Em episódios que têm entre 25 e 30 minutos, escritores são convidados a falar sobre um recorte do universo literário – tem papo sobre best-sellers, biografias, contos, literatura infantil, sobre escrever, sobre impressões, um pouquinho de tudo. Para encontrar o capítulo que mais te agrada, é só escolher no índice por tema ou no índice por autor.

Na seção Primeira Impressão, os escritores falam também sobre suas inspirações – livros e autores que despertaram neles a vontade de ler mais e de escrever.

Uma aba interessante de ser explorada no site é a Colofão, em que vídeos curtos mostram as etapas da elaboração, da produção e da venda do livro. Conhecemos um pouco mais sobre os profissionais e os processos envolvidos.

Há ainda outras cinco seções, que trazem os bastidores do processo de escrita, opiniões sobre obras, sugestões de livros importantes para o desenvolvimento das crianças, pílulas com histórias de autores de dentro e de fora do Brasil.

O Super Libris é dirigido pelo escritor e jornalista José Roberto Torero, que conseguiu reunir mais de cem entrevistados nesse projeto. Dica: abra a página com tempo, porque dá pra ficar horas explorando as pílulas, os vídeos e os textos.

Flip 2015 e Mário de Andrade

O Põe na Estante faz um lembrete para ajudar a organizar sua agenda literária de 2015. A Festa Literária Internacional de Paraty deste ano ainda não tem programação divulgada, mas tem data marcada. A Flip será realizada de 1º a 5 de julho. Já anote aí! Os detalhes do evento serão publicados em maio.

Mário de AndradeDepois de Millôr Fernandes, o homenageado será o modernista Mário de Andrade. A 13ª edição da Festa coincide com os 70 anos da morte do poeta, escritor e crítico literário. No site da Flip, um texto lembra que, entre os motivos para escolhê-lo como figura central deste ano, está a contribuição da obra de Mário de Adrade para a cultura brasileira e o fato de o autor ter contribuído, por exemplo, para a “a preservação da cidade de Paraty e a própria Flip, que guarda muito de seu espírito irrequieto, festeiro e articulador.”

Macunaíma primeira edição

Capa da 1ª edição de Macunaíma.

Pra reforçar as homenagens, a editora Nova Fronteira, que publica o escritor aqui no Brasil, prepara o lançamento de novos livros, incluindo uma versão em quadrinhos de MacunaímaCafé, obra inédita. No ano que vem, a obra de Mário de Andrade entra em domínio público.

Pra quem já quiser ir esquentando, a colunista da Folha de S.Paulo Raquel Cozer reportou que, já em fevereiro, chega às livrarias “Eu Sou Trezentos”, obra de Eduardo Jardim sobre o escritor modernista. O livro trará fotos do acervo de Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros.

Nu, de botas

Antonio Prata é cronista dos bons. E em Nu, de botas usa o que faz de melhor: resgata a memória, apura a observação e desloca o olhar. Transfere o ponto de vista para um menino, uma criança. E é de lá, da infância, que o autor olha para as próprias lembranças. O escritor abandona a visão de adulto (com exceção de umas pitadinhas de referência, como pra descrever a Vanda, “que vinha do interior de Minas Gerais e de dentro de um livro de Charles Dickens”) para recontar as passagens da infância que formam a obra. Resultado: é de dar muita risada.Nu de Botas - Antônio Prata

O livro é leve – tanto no tamanho (são só 140 páginas), quanto na fluidez da narrativa (de ler em uma sentada). Dividido em curtos capítulos, cada um com um episódio, Nu, de botas é quase uma catarse coletiva sobre a infância. O leitor pega emprestado um pouquinho das lembranças e é capaz de se enxergar em muitas das histórias impressas ali.  “Eu gostava muito de observar minha mãe escovando os dentes pela manhã: sua mão ia e vinha, rápida e precisa, de cima para baixo, depois fazia movimentos circulares, sem espirrar uma única gota de espuma. Tão diferente de mim, que só sabia escovar na horizontal e salpicava de branco a louça da pia, as torneiras, lambuzava o rosto inteiro. Minha mãe era tão hábil que conseguia até escovar os dentes e andar pela casa ao mesmo tempo – uma de suas façanhas que eu mais admirava.”

É possível, no entanto, que o livro converse com algumas gerações específicas. Quem nasceu muito antes ou muito depois do fim da década de 1970 (Antonio Prata é 1977) talvez não se identifique tanto com o pequeno paulistano de classe média que tem suas aventuras – ou desventuras – narradas na obra.

A afetividade das memórias pode soar piegas para os leitores mais resistentes. Mas é justamente o que conquista aqueles dispostos a voltar aos dias em que ligar para o programa do Bozo, superar os dilemas do Jardim II e descobrir que se chega à África atravessando o mar eram os grandes desafios da vida. “Não sabíamos a que distância estávamos do nosso destino – o tio do meu amigo havia dito apenas que ‘indo sempre reto aqui’ dava na África, sem entrar em detalhes –, então resolvemos nos precaver: passamos em casa para pegar as pranchas de isopor e, após vinte minutos e um rolo inteiro de fita-crepe, conseguimos colar uma garrafa de Lindoia na frente de uma delas. Tudo pronto.”

Chegar ao fim do livro dá vontade de escrever a nossa versão, de buscar nas gavetas mais escondidas do cérebro tantos episódios cômicos, apavorantes e esquisitos quanto os que acabamos de ler. A sensação também é de estarmos envelhecendo. Ainda mais porque, depois de uma infância recontada com tantos detalhes, a impressão é de que a memória já nos deixa na mão. A quantidade de minúcias nas histórias é de dar inveja. Quem liga se é tudo verdade?

Nu, de botas, de Antonio Prata. Companhia das Letras, 140 páginas, R$ 31.

Balada Literária 2014

Balada Literária abertura

Divulgação – site do evento.

Começa hoje, às sete e meia da noite, a nona edição da Balada Literária, evento organizado pelo escritor Marcelino Freire. A abertura será no Teatro Oficina, em São Paulo, com a montagem de O Anão do Caralho Grande, de um dos homenageados deste ano, o dramaturgo Plínio Marcos. É a primeira vez que a festa não começa no bairro em que nasceu, a Vila Madalena.

A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, obra internacionalmente reconhecida, traduzida para 13 idiomas, também será celebrada nessa edição. Ela será tema da primeira mesa de debates, amanhã, dia 20 (aproveitem que é feriado!), na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, e terá a participação da filha da escritora negra que era moradora de uma favela paulistana. Seu livro, inclusive, foi inspiração para o vídeo de divulgação da Balada Literária 2014. Esse aqui, ó!

A extensa programação, totalmente gratuita, vai até domingo, dia 23. Peças de teatro, lançamentos de livros, mesas de debates, shows e saraus. A lista completa, com horários e endereços, está disponível no site do evento. Boa Balada!

Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang

Ligue os Pontos - Gregorio DuvivierComediante, roteirista, ator, colunista, cronista e poeta. Gregorio Duvivier, um dos autores do popular Porta dos Fundos, mistura muitos de seus papéis em Ligue os Pontos. Fala de amor romântico, faz piada; filosofa sobre o dia a dia e sobre os quereres, concretiza rotinas; especula sobre as origens, ironiza; transforma a partida do carro em poesia, e pokemon, em elogio máximo.

No livro, o cotidiano está retratado em detalhes que costumam passar batido, na orelhada na conversa dos outros, no relance na cena do canto, ou nas atividades, nos objetos e nas grifes que estão todos os dias ao alcance. “o ipod o iphone o iogurte grego o mate de galão ou o miojo” que parecem não ter importância alguma, até alguém conseguir usá-los como parâmetros de modernidade para falar de amor. Sabe-se lá como se faz isso, mas Duvivier faz. Parece engraçado? E é também.

O amor e a vida viram figuras palpáveis, concretas e com marca. Como realmente são. As referências saem da mesa, da escrivaninha, da trilha sonora, da televisão. Dos nuggets ao icequê, dos beatles ao doug. Como cenário, o Rio de Janeiro. Com ruas, avenidas e números devidamente indicados para quem levar à risca a história de ligar os pontos e quiser tentar reconstruir o roteiro (mental) do escritor.

As descrições, cheias de metáforas e comparações, são sem dúvida um ponto alto de Gregorio Duvivier, muito bom em criar imagens literárias, transformando a avenida niemeyer no chile fluminense, e a chegada das aleluias que rodeiam as lâmpadas em ritual de medo e adoração.

A tarefa de ligar os pontos fica para você, leitor, que pode encontrar tudo ou nada nas páginas. Como o autor quando ligou “os pontos sardentos das suas costas na esperança de que a caneta esferográfica revelasse” tantas imagens esperadas, o leitor deste livro também pode se deparar com seres mitológicos, um mapa do tesouro ou uma constelação. Depende do caminho que a sua Bic percorrer.

Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang, Gregorio Duvivier. Companhia das Letras, 85 páginas, R$ 29,50.