Top 10 – 2018

Destacado

É sempre difícil selecionar os melhores livros do ano, mas escolhi dez que me marcaram de maneiras diferentes.

– Como as democracias morrem: importante pra entender o ano. Dois professores de Harvard mostram como hoje as democracias são minadas por dentro, sem golpes e tanque nas ruas. A partir do exemplo de países como a Hungria e a Turquia, os autores descrevem como governos eleitos democraticamente podem ser o primeiro passo para fragilizar e até destruir o sistema democrático.

– La Perra: este livro foi a descoberta de uma autora colombiana até então inédita na minha estante, Pilar Quintana. A história acontece na costa da Colômbia no Pacífico – o que é raro; a maioria das obras daquele país que têm o litoral como cenário acontecem na costa Atlântica. Diante da impossibilidade de ter filhos, Damaris quer uma cachorra e não imagina quantas questões humanas um animal pode despertar: a maternidade, o amor e a morte entre elas.

– Canção de Ninar: o livro da franco-marroquina Leïla Slimani, que foi uma das convidadas da Flip 2018, começa com a babá matando as crianças (não é spoiler, é a abertura da obra). No caminho para contar como a história terminou assim, a autora nos faz pensar sobre relações sociais, imigração e sobre ser mulher.

– Tempo de Migrar para o Norte: a obra do sudanês Tayeb Salih é considerada o romance árabe mais importante do século XX. Depois de sete anos estudando em Londres, o protagonista volta à sua pequena aldeia, à beira do Nilo, e ao se deparar com um forasteiro que também passou anos fora e voltou, pensa sobre o passado e o presente do país, com questionamentos sobre os papéis de colonizadores e colonizados.

– As Alegrias da Maternidade: a nigeriana Buchi Emecheta era inédita no Brasil. Na Nigéria do início do século XX, ser mãe (de menino) era o que fazia uma mulher. A protagonista dessa história divide com o leitor a angústia de não conseguir ter um filho homem.

– O Conto da Aia: li com atraso o livro de Margaret Atwood que inspirou a série de mesmo nome. Num futuro distópico, os Estados Unidos são governados por ultraconservadores que baseiam as leis na religião e reservam às mulheres um lugar de servidão e invisibilidade. É um livro brutal.

– Sol na Cabeça: em 13 contos, o carioca Geovani Martins traz a infância e a adolescência de moradores de favelas, a partir da vivência que ele mesmo teve. São narrativas ricas e cheias de ritmo, algumas delas com grande ênfase na oralidade que traz os personagens para mais perto.

– O Pai da Menina Morta: a partir da própria experiência, o autor, que perdeu uma filha pequena, reúne fragmentos de histórias, lembranças e sonhos permeados pelo luto. Um livro de extrema beleza e sensibilidade.

– Não me Abandone Jamais: no fim de sua carreira de cuidadora, Kathy relembra a infância em um colégio interno que esconde deles a verdade sobre a vida dos alunos. O livro começou lento, demorou a me pegar, mas de repente me vi sem conseguir desgrudar da história.

– Da Poesia: uma coletânea de poemas da brasileira Hilda Hilst, que foi a grande homenageada da Flip 2018. Nunca fui uma leitora voraz de poesia, mas esse livro me gerou grande identificação com os versos.

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Aniversários homenageados

Abril celebra dois grandes nomes da literatura brasileira. Mulheres que abriram caminhos para o gênero nas letras. Na última sexta-feira, Lygia Fagundes Telles completou 90 anos. Ontem, Hilda Hilst teria completado 83. As duas recebem homenagens.

Em Campinas, o Instituto Hilda Hilst inaugurou um teatro de arena na Casa do Sol, residência planejada pela escritora, onde ela viveu e recebeu artistas amigos durante muitos anos, e que hoje sedia o Instituto. Uma construção tombada como patrimônio histórico. A ideia é que o teatro seja usado também para divulgar a obra de Hilda Hilst. A primeira peça em cartaz é Jozú, o Encantador de Ratos, baseado no premiado texto da autora. O reconhecimento da ficcionista vem tardiamente – ela certamente celebraria o peso que hoje seu nome tem hoje na literatura nacional, mas quando morreu, em 2004, sua obra tinha menor projeção.

No Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional expõe documentos, periódicos e obras da paulistana Lygia Fagundes Telles. Contos e romances ilustram a carreira da escritora, que publicou seu primeiro livro aos quinze anos. A premiada autora é membro da Academia Brasileira de Letras desde 1985. Lygia escreveu mais do que livros fascinantes, deixou marcas importantes na trajetória dos brasileiros e das brasileiras, com participações em conquistas políticas e sociais. Em 1976, foi a Brasília para entregar um manifesto contra a censura, o Manifesto dos Mil. Antes disso, já havia desafiado regras sem se importar com repercussões escandalosas: separou-se do primeiro marido quando o divórcio era proibido no Brasil e, mesmo oficialmente casada, juntou-se com o segundo marido, o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes.

foto: Divulgação no Facebook da Biblioteca Nacional.

foto: Divulgação no Facebook da Biblioteca Nacional.

Escritoras que compartilham o mês de aniversário, o diploma de Direito conquistado no Largo São Francisco, a qualidade da obra e a busca por textos que trouxessem mais do que distração aos leitores – nas palavras de Hilda Hilst, que elas possam ser lidas “em profundidade”.

Serviço:
Jozú, o Encantador de Ratos
Dias 27 e 28 de abril, 4, 5, 11, 12, 18 e 19 de maio.
Aos sábados, às 21h e, aos domingos, às 20h.
Casa do Sol – Rua João Caetano Monteiro, s/n – Campinas.
Informações: (19) 3257-1076
R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia entrada).

Lygia Fagundes Telles: 90 anos de Vida
2º andar da Biblioteca Nacional – Av. Rio Branco, 219 – Rio de Janeiro.
Até 10 de junho.
De segunda a sexta, das 9h às 20h; aos sábados, das 9h às 17h; aos domingos e feriados, das 12h às 17h.
Entrada gratuita.