Doris Lessing

Deve estar divertido o encontro de Doris Lessing com José Saramago, rindo discretamente do chega-pra-lá que deram em convenções conservadoras e normativas. Há vozes que nunca deveriam se calar, mas quando uma delas se vai só resta comemorar o consistente eco que deixaram.

A escritora britânica que nasceu onde hoje é o Irã morreu aos 94 anos e felizmente nos deixou 50 romances. O Põe na Estante falou há pouco tempo de As Avós, uma obra belíssima, cheia de transgressões encantadoras.

Doris Lessing é considerada uma das escritoras mais influentes do século XX. E não há dúvidas nisso – e não porque ela venceu o Nobel de Literatura de 2007. A autora rompeu com a dominância masculina dentro e fora das narrativas, mas não quis ser lembrada por isso. Queria mesmo é que seus leitores captassem o ser humano em cada página que ela escreveu. Descreveu os humores e os amores – não como os russos, que foram na profundeza da alma, mas com a sabedoria de quem percebe nos gestos, nas palavras e nas minúcias a essência do que há de mais humano.

Eis uma imortal, independente de qualquer academia de Letras.

“Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão. Aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala”.
José Saramago

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As Avós

As Avós - Doris LessingMais que merecido foi o Nobel de Literatura de 2007. Quem o recebeu foi a britânica Doris Lessing, que, na verdade, é nascida no Irã e, antes de ir para Londres, viveu também na Rodésia do Sul, hoje Zimbábue. Na ocasião do prêmio, destacou-se sua capacidade de contar e esmiuçar a experiência feminina. Transitando entre gêneros literários diferentes, a escritora nunca abandonou a questão das mulheres, das amarras sociais e culturais, sugerindo transgressões ora sutis, ora enfáticas. As Avós é um romance publicado em 2003, quando a autora já tinha 83 anos. Doris Lessing está entre os escritores que se arriscam na proposta de quebras de paradigmas e desconstrução de papeis.

As Avós é a história de Roz e Lil, amigas de infância que nunca provaram a separação. “Duas meninas chegaram à escola no mesmo dia, na mesma hora, avaliaram uma à outra e tornaram-se amigas.” Casaram-se na mesma época, tiveram os filhos na mesma época e vivem em casas vizinhas, na bacia de Baxter, “uma bocejante baía cercada de rochas.” São casadas com Harold e Theo, e mães de Tom e Ian, respectivamente. Por razões diferentes, as protagonistas ficam sozinhas com os filhos adolescentes, com a tarefa de criá-los e mantê-los amáveis e encantadores. “As duas belas mulheres, juntas de novo como se os homens nunca tivessem participado da equação, continuaram vivendo com seus dois belos garotos, um deles um tanto delicado e poético, com cachos queimados de sol caídos na testa, o outro forte e atlético, amigos, como as mães tinham sido na idade deles.”

Ao contrário da tranquilidade que o cenário transmite, as relações nessas duas casas são conturbadas e surpreendentes. A maternidade, a amizade, a lealdade e a sexualidade estão juntas na narrativa, que flui de forma a impedir a dispersão de qualquer leitor. “E Tom, observador, sério, tentava entrar num acordo com essa dor, não sua, mas de presença tão próxima no amigo, seu quase irmão, Ian. ‘Eles são como irmãos’, as pessoas diziam. ‘Esses dois, eles podiam bem ser irmãos.’”

O livro começa em um café, no presente. As duas amigas, já avós, estão acompanhadas dos dois filhos e das duas netas. A chegada das noras, furiosas com alguma descoberta, desenrola a história, uma espécie de digressão, um conto breve sobre o passado, uma reavaliação da vida e dos relacionamentos desses personagens tão sedutores. “E a maneira como cuidavam das meninas, a tranquilidade e a competência deles. E a forma como as avós estavam sempre por perto, fazendo dos quatro, dos seis… mas onde estavam as mães, as crianças têm mães (…)”.

É um livro sem hora certa, sem tempo certo e sem jeito certo. Tudo é válido. Não há rótulos. O título, no fundo, soa irônico, porque o que Doris Lessing faz é justamente desconectar as imagens e as expectativas associadas a um papel. Diferente do olhar viciado e fragmentado, que tem dificuldade de enxergar pais, mães, irmãos, avós fora dessa função social, a obra contorna os personagens e coloca-os completos, sem censura. “(…) e então, por fim, compreendeu. Estava tudo claro.”

As Avós, Doris Lessing. Tradução de Beth Vieira. Companhia das Letras, 97 páginas, R$ 30.