O Prêmio Portugal Telecom e os Brasileiros

Prêmio Portugal TelecomOs brasileiros estão em destaque no Prêmio Portugal Telecom deste ano. Dos 22 romances semifinalistas, 17 são de autores nacionais. Daniel Galera, João Gilberto Noll e Xico Sá estão entre eles. Sem contar os selecionados para a próxima etapa nas categorias Poesia e Conto/Crônica.
Ao todo, 450 livros foram inscritos para a seleção e 63 foram escolhidos como semifinalistas. Foram 280 jurados até agora, mas, a partir dessa etapa, as obras serão selecionadas pelos curadores e por seis convidados, que, em setembro, terão que indicar os 12 finalistas – quatro em cada categoria.
A curadoria-geral do Prêmio é feita pela consultora literária Selma Caetano, o curador da categoria poesia é o poeta Antonio Carlos Secchin, na categoria romance é o escritor Luiz Ruffato, e a curadoria de conto/ crônica é feita por Marcelino Freire.
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p.s. Uma dica rápida para os leitores do Piauí que quiserem renovar a estante. A 11ª edição do Salão do Livro do Piauí (Salipi) tem promoções de diversos títulos. Algumas obras infantis chegam a ser encontradas por cinquenta centavos. O evento, realizado no Complexo Cultural da Praça Pedro II, em Teresina, também traz debates e conversas literárias.
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Barba suja, ensopada, encharcada de sangue

Barba ensopada de sangueDemorei para processar a densidade de Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera. Não à toa o autor é considerado uma promessa da literatura brasileira contemporânea. É uma obra sem meio termo. A qualidade da narrativa é inegável, a construção dos diálogos é ponto de destaque e as minúcias da descrição são a marca. A história é violenta do começo ao fim, os personagens aguentam fardos pesados, sem nenhum tipo de recompensa.

A trama, escrita em um ritmo ágil, tem como protagonista um triatleta, formado em educação física e professor de natação, que vai a Garopaba, no litoral de Santa Catarina, depois que o pai comete suicídio. Sem manter relações muito próximas com a família – com o irmão ele nem fala, busca refúgio em um apartamento à beira-mar e começa a dar aulas em uma academia local. Vive com a cadela Beta, que pertencia ao pai.

O diálogo que abre o livro é arrebatador. “(…) Tô de saco cheio. Acho que começou com aquela cirurgia de hemorroida. No meu último checape o médico viu os exames e me olhou com uma cara de morte, de decepção por toda a raça humana. (…) Tô começando a ficar doente e não to a fim.” Na conversa entre o triatleta e o pai, ele anuncia ao filho que vai se matar, pede que a cadela seja sacrificada quando ele morrer e conta a história do avô do protagonista, que viveu em Garopaba, foi esfaqueado em uma festa, enquanto a luz foi apagada, mas cujo corpo nunca foi encontrado. A história do professor de natação no litoral catarinense é entrelaçada com a do avô. Ele quer desfazer os mistérios que rondam a suposta morte do velho, chamado de Gaudério. A história dos dois se confunde, o triatleta dá passos e comete erros semelhantes à vida trilhada pelo avô. Pra completar, fisicamente são muito parecidos. Às vezes, o autor sugere que as histórias se repetem – quem sabe até não é também Gaudério o nome do nosso protagonista inominado.

As descrições, cheias de detalhes sensoriais, nos remetem ao mundo do protagonista, que sofre de um problema neurológico raro e não consegue armazenar na memória, mesmo que por pouco tempo, o rosto das pessoas. Ele desenvolve artifícios para reconhecer cada um – particulariza o cabelo, as mãos, o andar; e avalia o contexto. “Há o calor, o cheiro e uma memória nítida de todas aquelas coisas que prescindem não apenas de um rosto mas da própria visão. O peso é uma de suas sensações favoritas.” Conhecer o que rodeia cada personagem nos permite um reconhecimento à moda do atleta.  Todos que convivem com o protagonista conhecem essa condição, mas, como ele vive fechado na construção da própria identidade, poucos conhecem o que nada o faz esquecer. A culpa por não ter sacrificado Beta, o último desejo do pai; o orgulho que o leva a não perguntar quem é quando demora a reconhecer alguém; e a angústia por não conseguir informações sobre o avô, que o leva a uma investigação empírica.

Na história, há amor, há tristeza, há sofrimento, há traição. Tudo escancaradamente disfarçado pela vontade do protagonista de ser uma ilha, um desejo tão intenso de não depender de ninguém que faz com que, vez ou outra, o atleta beire um psicopata do bem, que passa incólume pela dor, pela amargura e quase pelo inverno melancólico de Garopaba. Uma combinação provocadora de um vazio tão profundo que dá vontade de pôr o livro de lado, de volta na estante, mas a narração de Galera não deixa. Dá vontade de saber o final. Um fim nada previsível – sem alívio, sem resignação, sem consolo. “(…) vai ser mais rápido do que tu tinha imaginado. Já acabou.”

Barba Ensopa de Sangue, de Daniel Galera. Editora Companhia das Letras, 422 páginas, R$ 39,50.