Vila Brasileiros

A Revista Brasileiros e a Livraria da Vila formaram uma parceria para discutir a literatura. Encontros mensais, abertos ao público, e com a presença de autores, para pensar e discutir as Letras. O curador do projeto é o escritor Manuel da Costa Pinto e os eventos acontecerão sempre no auditório da Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho, em São Paulo, das 19h às 21h.

foto: divulgação/ site Livraria da Vila

foto: divulgação/ site Livraria da Vila

Os encontros já tem data marcada e o primeiro deles, no dia 18 de fevereiro, vai debater o papel da crítica literária. Além do curador, participará do debate o escritor Ricardo Lísias. Entre os temas que serão abordados nas reuniões seguintes estão literatura e futebol, e a semelhança entre algumas séries de TV e as peças de Shakespeare. A entrada é gratuita.

Programe-se! As datas e os temas dos encontros estão disponíveis no site da Revista Brasileiros.

Realismo e empatia

Em Como Funciona a Ficção, o crítico inglês James Wood analisa e desmembra a prosa literária. Ele desmonta narradores, personagens, estilos, frases, linguagem, para captar por que eles funcionam ou não; por que têm esse ou aquele efeito; por que atraem ou não o leitor. Dois tópicos merecem destaque: Wood explica o uso da descrição e a construção da verossimilhança na prosa realista, e destaca a capacidade da (boa) literatura de gerar empatia no leitor. Os temas são abordados separadamente na obra de crítica literária, mas me pareceu providencial uni-los.

Wood disserta sobre o realismo, fala das diferentes formas que os escritores pilha de livrosencontraram de escancarar detalhes, ressalta que nem toda descrição precisa remeter a uma imagem visual e diz que, depois de Flaubert, muitos foram os autores que buscaram uma aproximação com o real. Alguns, inclusive, beiraram a artificialidade ao exagerar nas minúcias. O resultado é que o realismo, abandonados os preciosismos técnicos, virou uma grande nebulosa, onde obras completamente diferentes, linguagens e narrativas absolutamente distintas são igualmente abrigadas. Muitos são os autores que se presumem realistas e nós, leitores, que podemos gostar de uma obra independente de sua categoria, também incluímos tantos deles no leque do realismo. É que parecem reais. Reais para nós.

Cada um encontra uma frase, um protagonista, um antagonista, sensações ou palavras para chamar de eu. Nós estamos naquelas páginas. Somos aqueles personagens, vivemos aquelas situações, fazemos dos diálogos nossas palavras. Enxergamos a nossa verdade nas páginas do livro e por isso parecem tão realistas enredos absurdos e descabidos. A empatia que criamos com uma obra pode fazer dela mais real. Da mesma forma que os escritores, quando captam as paixões e colocam vida no papel, se pretendem realistas porque avaliam que naquela narrativa está a verdadeira projeção da vida real.

O realismo, não como escola literária, mas como gênero, depende da empatia deles e nossa, escritores e leitores. A captação do real é subjetiva, pessoal e intransferível. Por mais que haja tentativas de normatizá-la, há a injeção do repertório, do sentimento, do entusiasmo – e isso faz com que a experiência de escrever ou ler a realidade se torne verdadeiramente a compreensão do universo individual e social. Quantas vezes o livro te explicou o que a vida não explicou? Quantas páginas te deram o clique para uma reflexão fundamental? Ou quantos personagens e narradores você compreendeu profundamente, como estando no lugar deles? Culpa da empatia, do realismo e da epifania que nasce dessa combinação.