O Brasil no Boom Latino-americano

A maioria  dos críticos não inclui os autores brasileiros quando o assunto é o boom literário da década de 1960 – com destaque para o prodigioso ano de 1962. Mas considerando algumas características que marcaram esse momento das letras em língua espanhola, talvez devêssemos dar ouvidos às análises que citam nosso país como um fruto dessa explosão de publicações.

Entre as marcas das narrativas dessa década, estão as inovações e a experimentação no que diz respeito à forma e à linguagem. Além disso, os romances começaram a extrapolar o realismo que era característico nas produções latino-americanas, e passaram a criar personagens que se consagraram. Nas páginas dos livros, aqueles protagonistas podiam ter características regionais, mas, retratados em sua humanidade, viravam universais.

Guimarães Rosa

“O sertão é do tamanho do mundo” – Guimarães Rosa.

Não há nenhuma característica acima que não se aplique a João Guimarães Rosa. É inegável o que o autor mineiro criou em termos de linguagem. Sem contar que um de seus personagens mais marcantes – ou o mais – Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas (de 1956), é a descrição perfeita do personagem regional universal. Não à toa descobrimos escrito ali que “o sertão é do tamanho do mundo.” O jagunço do sertão é também filósofo: pensa o mundo, o homem, a vida, a realidade, Deus.

Em 1962, Guimarães Rosa publicou Primeiras Estórias e é verdade que não foi uma obra de projeção internacional. Mas, por mais que nenhum de nossos escritores tenha virado expoente mundial durante o boom ou imediatamente após esse fenômeno de obras, a explosão latino-americana abriu as portas para que a literatura do Brasil chegasse a terras distantes. Ao virar os olhos para a América Latina, norte-americanos e europeus descobriram também nomes como Guimarães Rosa e Jorge Amado – citados aqui e acolá como autores que decolaram após 1962. Sem contar Clarice Lispector, pincelada por alguns poucos críticos.

Jorge Amado também tem uma lista de semelhanças com os autores de língua espanhola de sua geração. Como muitos, ele foi comunista e tinha uma motivação política e social para escrever – o que não significa que suas obras fossem um tratado sobre a concentração de renda ou as desigualdades sociais. O baiano, autor de Gabriela, cravo e canela escolheu o mesmo recurso usado pelos autores do boom: retratou as crenças, as regionalidades, as tradições e as marcas de seus conterrâneos para enfatizar o potencial humano e cultural da região. Se o boom foi uma explosão de vida artística e criativa, valorizando uma região do mundo, os brasileiros estão preparados para incrementar essa lista de autores.

O Boom Literário de 1962

Comecei hoje uma releitura de A Cidade e os Cachorros, de Mario Vargas Llosa, inspirada pelos cinquenta anos do que foi considerado um boom na literatura latino-americana. Um Congresso de Intelectuais, no Chile, inaugurou um ano farto para as letras: 1962. Em uma análise mais minuciosa, podemos destacar até vinte autores que despontaram nesse momento e enriqueceram a literatura – principalmente em língua espanhola. A agitação social e política que a região vivia – vários países conviviam com graves problemas relacionados à pobreza; outros (ou os mesmos) enfrentavam ditaduras militares; e havia ainda as revoluções, como a Cubana – deixaram de ser o único assunto exportado pela América Latina.

boom literário el país

Foto publicada no jornal El País: da esquerda para a direita, Gabriel García Márquez, Jorge Edwards, Mario Vargas Llosa, José Donoso e Ricardo Muñoz Suay, em 1974.

Os escritores considerados os expoentes do boom já preparavam o terreno logo no início da década de 1960. A maioria deles já tinha publicado obras, mas elas tinham uma difusão inexpressiva e sequer esbarravam na repercussão internacional. Em 62, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Alejo Carpentier, Mario Vargas Llosa, Juan Carlos Onetti, José Donoso e tantos outros ganharam o mundo. Eles publicaram livros que voltaram os olhos norte-americanos e europeus para cá. Mas não parou por aí. Esse foi só o anúncio de que os próximos anos seriam férteis, a abertura de portas para quem veio logo em seguida, como Cabrera Infante, Juan Rulfo, Ernesto Sábato e Adolfo Bioy Casares. O jornal espanhol El País – que, por sinal, vem fazendo uma cobertura fabulosa do aniversário de 50 anos do boom – destacou que o período foi tão frutífero que “se entre 1918 e 1961 foram publicadas meia centena de obras importantes, entre 1962 e 1970 apareceram quase quarenta livros inesquecíveis e escritores que passaram para a história da literatura.” Em apenas cinco anos – entre 1962 e 1967 – foram publicados O Jogo da Amarelinha,  Cem Anos de SolidãoA Morte de Artemio CruzA Cidade e os Cachorros e várias outras obras dignas de se pôr na estante.

Alguns consideram que o boom só aconteceu porque o mercado editorial dos Estados Unidos estava propício – queria explorar algo novo. Mas, independente dos motivos, são inegáveis as heranças do boom e a influência desse momento literário em autores contemporâneos americanos e europeus. Vou usar as palavras de Gay Talese, que escreveu que “os escritores do boom eram grandes narradores e artistas do fictício, e as histórias que contaram através de sua ficção, não só iluminaram e ampliaram nosso sentido da realidade, mas também foram uma inspiração para nós.” São nomes que garantem uma estante cheia de boas histórias, com personagens muito parecidos com cada um de nós.