Meias-palavras

Pensando em meias-verdades e verdades e meia, fiz uma breve busca no meu repertório para resgatar na literatura um autor que lidasse à altura com as dificuldades que temos em tirar filtros, máscaras e meias-palavras da frente na relação com o outro. Como seria natural, minhas notas mentais me levaram a um de meus autores favoritos, Julio Cortázar.

O argentino é um romancista inventivo e um contista fluido e detalhista. Lembrei-me que Julio Cortázarencontraria em Todos os fogos o fogo a referência que procurava. O conto A Saúde dos Doentes fala de uma relação familiar cheia de camuflagens, segredos e omissões. Tudo em nome da proteção e do bem-estar. Puro altruísmo, não fosse de um egoísmo tremendo. É a história de uma família em que a matriarca não pode saber de nada. Para poupá-la, os parentes omitem as doenças, encontram desculpas para as ausências e nem sequer permitem que ela saiba que o próprio filho morreu. Todos sofrem em silêncio e sustentam histórias fantasiosas e mirabolantes para enganar uma mulher que parece inquieta, curiosa e de certa forma dominante, mas que, ainda assim, poderia ter um piripaque se entrasse em contato com a vida.

A protagonista vive em uma bolha, impedida de ajudar, de chorar, de sofrer. Na artificialidade de sua rotina tranquila, não tem nem mesmo o direito de empurrar para debaixo do tapete aquilo com que não quer lidar. Só as verdades podem ser varridas para esse canto escuro; as mentiras precisam de um lugar mais seguro, sem o risco de alguém levantar o tapete a qualquer momento.

Cortázar trabalha, em seus contos, com recortes. Ele fala do micro, do momento, do contexto individualizado, como em uma fotografia. Como resultado do enredo, o leitor termina com a sensação de que a matriarca está se apagando da foto, à medida em que personagens que já deixaram de existir (mas continuam vivos nas histórias para a mãe dormir) parecem cada vez mais nítidos na imagem. O real se apagando para dar lugar à fantasia.

A identificação de quem lê vem do questionamento inevitável sobre os limites da verdade. Parece trivial a defesa da sinceridade e da transparência, mas a intensidade da vida pode chocar a ponto de preferirmos vez ou outra uma justificativa inverídica. A graça da literatura – pense bem – está também em lidar com verdades que podemos enxergar como alheias somente. Um sofrimento que acaba quando fechamos o livro – mas euforias que também terminam assim.

Em A Saúde dos Doentes, Julio Cortázar põe na balança: de um lado, as agonias; do outro, as alegrias. Duas facetas que só a verdade pode dar, mas, para isso, leva embora a tranquilidade e o conforto. Uma escolha que todos deveriam ter o direito de fazer, apesar de ele ser negado tantas vezes na convivência em um grupo, quando as relações se baseiam em meias-palavras.

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5 respostas em “Meias-palavras

  1. Olá, Gabriela,
    Tomo a liberdade de dar uma dica que ninguém pediu. É que o ‘sequer’ tal como você usou no texto deu justamente sentido oposto ao que você queria dizer. É como se tivesse dito [e “ao menos / pelo menos” permitem que ela saiba que o próprio filho morreu.]
    Encontrei esse link que pode ser útil: http://www1.folha.uol.com.br/folha/podcasts/ult10065u425948.shtml

    PS.: Tentei enviar a mensagem privadamente, mas não encontrei meios. Você é talentosa, linda, e lhe desejo muito sucesso.

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